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«O que mata Portugal» Eça de Queiroz, 1867

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Eça de Queiroz, 1845-1900

Em Janeiro de 1867, um jovem com pouco mais de 21 anos partiu para Évora, contratado para ocupar o cargo de director de um jornal de província, o Distrito de Évora. Chamava-se Eça de Queirós e pouca ou nenhuma experiência tinha do trabalho que aceitara fazer, a não ser que consideremos como tal a passagem pelas páginas da Gazeta de Portugal, no ano anterior, quando escrevera e publicara folhetins (mais tarde chamados Prosa Bárbaras) que escandalizaram o meio cultural da capital.

Eça não se limitou a dirigir o Distrito de Évora; redigiu todo o jornal, no que foi uma actividade febril de escrita, desdobrada por vários registos e formatos. Havia que preencher as diferentes secções – política nacional, política estrangeira, crónicas, traduções, revista de imprensa, correspondências (supostamente) enviadas de Lisboa, etc. – e assim fez esse que era um escritor em formação, em engenhoso processo de desdobramento e à custa de uma versatilidade estilística que prenunciava o grande romancista e o cronista atento que estava para chegar.

Para além do mais, a breve mas intensa aventura do Distrito de Évora (ainda em 1867 Eça regressa a Lisboa e retoma os folhetins da Gazeta de Portugal) foi uma oportunidade privilegiada para olhar para a realidade. E para reflectir sobre a vida política e social portuguesa, alguns anos antes d’As Farpas. É notável e ao mesmo tempo preocupante a actualidade das reflexões de Eça sobre a vida política de então, as suas contradições e os seus vícios. Noutros termos: o que o jovem Eça publicou no Distrito de Évora, a 3 de Março de 1867, parece ter destinatários certos ainda hoje. Assim:


"O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.

Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos."

Eça de Queirós, in ‘Distrito de Évora’, em 1867
queirosiana.wordpress.com

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