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Novas vítimas do capitalismo popular

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1. O BES deixa um mar de destroços, vidas financeiramente destruídas e outras que demorarão anos a salvar através da venda de bens do caduco Grupo Espírito Santo (GES). Fá-lo com um resgate, quase cinco mil milhões de euros, que só o tempo mostrará se serão pagos ou não pelos contribuintes e que talvez pudesse ter sido evitado nesta dimensão se há duas semanas uma intervenção mais decidida do Governo e do Banco de Portugal não tivesse deixado o banco cair dos 60 até aos 10 cêntimos.

As lições a tirar são muitas e, na prática, nenhuma. A mentira e a ganância são muito velhas. Quando um braço importante do sistema financeiro rebenta, os estados são chamados de emergência para evitar que toda a economia colapse. É assim em todo o lado - só António José Seguro, que quer ser estadista, ainda não percebeu.

Recorde-se que no dia seguinte ao colapso financeiro de 2008, George W. Bush, um indefectível do "mercado", teve de ir salvar a segunda maior seguradora do Mundo, a AIG. Se não o tivesse feito, milhões de norte--americanos teriam perdido as suas poupanças-reforma. Espanha, por seu lado, teve de meter 200 mil milhões na Banca (20 vezes mais que Portugal).

2. O caso BES sucede porque, reconheça--se, todos os dias os ladrões enganam os polícias. E a tarefa de desmontar o GES, peça por peça era, reconheça-se, quase inimaginável para as forças e meios de um governador do Banco de Portugal ou da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). O GES, BES, Ricardo Salgado e Ricciardi foram sempre os pivôs de todo um sistema financeiro e político blindado. Talvez só os auditores, neste caso sobretudo a KPMG, pudessem conhecer com todo o detalhe o que por lá se passava. E é exactamente neste ponto que, passados seis anos sobre a falência do Lehman  Brothers, na prática pouco mudou. 

Cada empresa de auditoria lavará as mãos dizendo ter apenas uma visão parcial de um negócio e estarão sempre nos relatórios as meias palavras, meias tintas, que permitem todas as leituras. Como o cliente tem sempre razão, é muito difícil que a auditora contratada humilhe na praça pública o presidente do banco que a contratou. E o ciclo vicioso mantém-se: o Banco de Portugal acusa as auditoras e estas escudar-se-ão no que revelaram (sem no entanto terem verdadeiramente "revelado" em toda a sua força e extensão).

3. Ricardo Salgado e a família tentaram evitar uma falência que foi nascendo no pós-crise de 2008 e se tornou galopante a seguir à bancarrota de Portugal. Arriscou cada vez mais e finalmente o Banco de Portugal conseguiu apanhar o "ladrão", já ele tinha gerado um efeito devastador - sobretudo nos depositantes que acreditavam cegamente na marca "BES" ou nos accionistas que subscreveram o último aumento de capital tendo por base informação manipulada pelo "papa" da Banca.

4. Neste trágico episódio da vida portuguesa perdeu-se o maior banco privado, a liderança da maior empresa de telecomunicações (PT-Oi), uma das maiores seguradoras nacionais está à venda e o maior grupo internacional português com activos por todo o Mundo desaparece. O especialista em grandes trapalhadas bancárias, João Rendeiro, calcula em mais de 7% as perdas do PIB português com este episódio. E perderam--se milhões no mercado de capitais -Portugal tornou-se um sítio ainda mais perigoso para se meter dinheiro.

Mas esta é apenas mais uma história deste sistema financeiro baseado no lucro extremo e na remuneração a todo o custo para os accionistas. Há sempre um dia em que o "monstro" escapa ao controlo de quem beneficia dele. É uma espécie de equilíbrio "genético" porque, no essencial, o sistema financeiro não contribui para um mundo com salários dignos e valores sociais sustentáveis. Há dinheiro bom e mau - não é todo igual. Enquanto este sistema financeiro existe, sobrevivem os que estão no topo mas vão sendo abatidos, sem misericórdia, os accionistas que julgam ser possível o capitalismo popular sem um brutal risco.

Ao fim de vários erros, muitas dívidas e custos sem fim para os contribuintes, não precisamos de mais exemplos para assumir que a sociedade precisa de reformatar-se e dar outra dignidade ao valor do trabalho e à criação de emprego. A geração de riqueza fácil através da especulação tem de ter um fim. Caso contrário, a ganância continuará a ser a base do sistema - e ensinada em todos os manuais das melhores universidades

Por Daniel Deusdado

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