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Fariseus!

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Há cerca de três semanas anunciei que, em 2015, iria pedir ao eleitorado que substituísse o meu mandato de deputado ao Parlamento Europeu pelo de deputado à Assembleia da República, pois iria candidatar-me ao cargo de primeiro-ministro. E revelei as razões por que o fazia. Imediatamente, os alabardeiros do sistema político, que vão de uma direita burlesca a uma extrema-esquerda apatetada e a outra de sacristia, reagiram com a finalidade de desviar as atenções do que é importante. 

Na verdade, como um coro bem afinado, eles acusaram-me de tudo e mais alguma coisa mas nem uma palavra sobre os motivos da minha intenção de sair do PE. 

Para eles é irrelevante que os deputados recebam mais de 18 mil euros mensais para representarem um país cujo salário mínimo é inferior a 500 euros; que só paguem impostos sobre um terço dessa remuneração e a uma taxa de 20%, enquanto as pessoas que os elegeram vivem esmagadas com impostos que lhes podem confiscar mais de 50% dos rendimentos do trabalho; que um simples mandato de cinco anos possa dar direito a uma pensão vitalícia de cerca de 1300 euros mensais quando os portugueses precisam de trabalhar várias décadas para obter uma pensão que nem sequer os sustenta na velhice. Para eles é insignificante que um eurodeputado disponha de mais de 21 mil euros mensais para contratar quem queira sem ter de justificar essas contratações, tenha todas as viagens suportadas pelo PE e disponha de Mercedes topo de gama e motorista para todas as deslocações (mesmo pessoais) que faça em Bruxelas ou em Estrasburgo. Nada disso os perturba. 

O que os incomoda — e muito — é o facto de um deputado recém-eleito se ter recusado a saborear em silêncio essas mordomias, as ter denunciado como inadmissíveis perante a pobreza do povo que representa e se preparar para regressar ao combate político em Portugal. 

Acusam-no de falta de coerência pois, para eles, quem não concorda com esses privilégios deveria demitir-se. O seu paradigma argumentativo é o mesmo que foi usado contra os comunistas que não repartiam os seus bens com os proletários ou não emigravam para a União Soviética que elogiavam. As categorias mentais são as mesmas. 

Eles não são como o idiota da fábula chinesa que, atávico, olhava para o dedo quando alguém apontava para a lua. Perante a denúncia de uma situação escandalosa eles, perfidamente, olham para o dedo que a indica, dizem que a unha está roída e logo diagnosticam os piores desvios morais e de carácter de quem a denunciou. Deve, realmente, ser insuportável ouvir publicamente o que tão empenhadamente se calava. 

Eles não se incomodam que uma eurodeputada recém-eleita se preparasse para abandonar o lugar para ir para comissária da UE ou que um ministro tenha ido para administrador de uma empresa a quem, em nome do Estado, pagara milhões de euros por empreitadas de obras públicas ou que outro tenha ido presidir a uma empresa estrangeira cuja instalação em Portugal autorizara enquanto ministro ou que o presidente da principal entidade de supervisão bancária tenha sido diretor de um banco privado que usava o dinheiro dos seus depositantes para, através de offshores, comprar as suas próprias ações inflacionando-as para cotações que chegaram a ser mais de cem vezes superiores à atual ou que o BES tenha financiado congressos de magistrados do Ministério Público ou que dezenas de jornalistas tenham feito cruzeiros no iate do seu presidente. Eles não se preocupam nada com a corrupção que se generalizou no sistema político e mediático nem com a gigantesca teia de tráfico de influências que asfixia o Estado democrático. O que os incomoda é que alguém denuncie essa podridão até porque isso revela também a cumplicidade dos seus silêncios. 

Mas o que verdadeiramente atormenta essa choldraboldra de Fariseus e os que se escondem por trás dela é tão-só o mau exemplo de alguém que apareceu a fazer política recusando o que de melhor ela lhe podia dar em benefício exclusivo daquilo para que ela realmente existe: a Res Publica. 

António Marinho e Pinto 
Expresso, 2014.08.30

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