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«Das frases politicamente mais estúpidas que me foi dado ouvir»

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O “nós não somos a Grécia”, repetido por esta maioria como um mantra, é das frases politicamente mais estúpidas que me foi dado ouvir. É claro que nós somos a Grécia a partir do momento em que quisemos ser europeus e porque a Grécia é a Europa: foi a Grécia que fundou a civilização europeia ao abrigo de cujos valores queremos continuar a viver. Porque a Europa — entre outros, sonhada pelo alemão Adenauer — é muito mais do que o défice e a dívida, os investidores e os mercados. É uma ideia política — de democracia, de espaço de todas as liberdades, de defesa dos cidadãos contra os abusos dos poderes, de progresso social, económico e científico, de paz e de segurança comum — a que se juntou depois a difícil tarefa de a englobar também num espaço económico comum, sem fronteiras comerciais e cimentado numa moeda única.




Seria uma tragédia que as dificuldades de consolidação da moeda única, causadas pelas desigualdades à nascença entre os países aderentes e pelas desigualdades das regras de jogo entre eles (diferentes taxas de juros para as empresas e para as dívidas públicas, diferentes regimes fiscais, diferentes condições para a poupança e investimento) conduzissem à implosão daquilo que foi fundamental na criação da União Europeia. Mas é para aí que parecemos caminhar: a Europa que enfrenta a ameaça do fundamentalismo islâmico mas que rejeita integrar a Turquia, que cerca a Rússia e se vai enfiando cada vez mais no vespeiro ucraniano, que aceita o neofascismo húngaro mas não se conforma com a vontade democraticamente expressa pelos gregos de querer mudar de vida, essa Europa caminha para a desagregação. Foi construída por visionários e, se nada de substancial mudar, vai ser destruída por merceeiros.

Sim, eu sei tudo sobre as culpas da própria Grécia na sua ruína actual. Poucos anos depois da adesão da Grécia à UE, passei lá uma semana a fazer uma reportagem para a RTP, sobre os efeitos dessa adesão. Ouvi de viva voz, e não reportado por outrem, governantes, empresários e agricultores, explicarem-me como aquilo era uma coisa extraordinária: recebia-se dinheiro de Bruxelas para tudo e não era preciso fazer nada (o mesmo que, em menor escala, se passou aqui, na prodigiosa década de governação cavaquista, que se seguiu à nossa adesão). Depois, fui lendo sobre as 200 profissões de “desgaste rápido” que davam direito a pensão de reforma completa após 25 anos de trabalho, sobre os 27 jardineiros para tratar um hectare de jardim público, os 20 motoristas ao serviço de um director-geral, as escabrosas despesas militares, a fuga ao fisco como desporto nacional, a corrupção, de baixo para cima e até ao topo, instituída como fonte de rendimento paralela. Mas também vi como Bruxelas fechou os olhos a tudo, como o Goldman Sachs ajudou o Governo grego a ocultar a situação desastrosa das contas públicas, como a Alemanha, não ignorando o que se passava, vendeu cinco submarinos a um Governo de um país falido, com os bancos alemães a financiarem a compra, e como é que, depois, os 240.000 milhões emprestados pela troika serviram, antes de mais, para livrarem a banca alemã do sarilho em que, por simples avidez, se tinha enfiado.

Também não ignoro como o programa do Syriza está cheio de verborreia demagógica da esquerda — quando, por exemplo, se propõe taxar a 80% as “grandes fortunas” (a partir de um milhão de euros), como se fossem essas “grandes fortunas”, que rapidamente emigrariam, a salvar as contas públicas e não os milhões de pequenos e médios contribuintes que acham que só os ricos é que devem pagar impostos. Ou quando se propõe, e bem, atacar a “grande corrupção”, mas fingindo não ver a outra, como a dos médicos que recebem “envelopes” para ver os doentes nos hospitais públicos (cuja denúncia, feita pelo José Rodrigues dos Santos, como lhe competia, provocou a ira de um dirigente do BE, o “nosso Syriza” — que, pelos vistos, é “Charlie”, mas não tanto).

Sim, levo tudo isso em conta, incluindo o argumento ad terrorem esgrimido contra o novo Governo grego: se eles não têm dinheiro, se dependem dos empréstimos dos outros, como é que se atrevem a querer ditar regras e revogar unilateralmente o que acordaram com a troika — coisas como a nacionalização por atacado e a preços de ocasião de portos, aeroportos e electricidade (como nós fazemos), a redução de 25% do salário mínimo, o corte de electricidade a 300.000 pessoas que não têm dinheiro para a pagar, ou essa medida de uma profunda insensibilidade social que é a de deixar de prestar cuidados de saúde a quem esteja desempregado há mais de três meses e não tenha meios para pagar os cuidados a prestar? Sim, como é que eles se atrevem?

Atrevem-se, porque quem já quase tudo perdeu, pouco mais tem a perder. A agenda da troika para a Grécia, fruto de uma irresponsável incompetência e de uma vontade punitiva amoral, produziu centenas de milhares de desempregados e novos emigrantes, reduziu o Estado social aos tempos anteriores a Bismarck e cilindrou a classe média, sem a qual nenhum país tem futuro. Ao fim de seis anos de uma austeridade ditada por um misto de fanatismo ideológico e experimentalismo económico, a Grécia conseguiu, de facto e em troca da destruição da sua economia, atingir um saldo primário positivo das contas públicas de 6,5%. Ou seja: o Estado grego gasta menos 6,5% do PIB do que aquilo que recebe. Está rico, então? Não, porque tudo isso e muito mais é absorvido com o serviço de pagamento da dívida, capital e juros. Diz Bruxelas e Berlim, e dizia o ex-PM Samaras, que, todavia, os resultados do sacrifício feito compensaram e já se vê reflexos disso no crescimento de 0,7% do PIB em 2014 — o mesmo que diz o nosso Governo, com idêntico crescimento.

É maravilhoso, de facto, não fosse o facto de a dívida acumulada atingir 180% do PIB! Isto é, a crescer a este ritmo, seriam precisos mais de 200 anos, cinco gerações, para pagar a dívida (a menos que, como insultuosamente sugeriram alguns alemães, os gregos lhes vendessem as ilhas). Eu sei que quem deve tem de pagar, mas também julgo que quem tem a haver só se for estúpido é que sufoca o devedor. Como escreveu Alexis Tsipras há semanas, a vitória do Syriza seria, antes de mais, a vitória do bom senso sobre o fundamentalismo ideológico. É verdade que a Grécia já beneficiou de um substancial corte no montante da dívida, mas também é verdade que a dívida não parou de crescer desde então, nem vai parar, porque a política de terra queimada imposta pela troika impede que seja o crescimento económico a financiar o pagamento. Como fez a Alemanha no pós-guerra.

Se a Europa — isto é, a Alemanha — forçar o Governo de Tsipras a capitular, muita gente ficará feliz com o desfecho. Mas são inconscientes: estarão apenas a antecipar o fim da Europa. A capitulação e humilhação da Grécia detonará, entre muitos povos da Europa, uma onda de ódio antialemão e de frustração com Bruxelas que será terra fértil para extremismos e radicalismos bem mais perigosos e incontroláveis. O desespero nunca foi bom conselheiro. A chancelerina Merkel devia meditar na célebre frase de Kennedy: “Os que tornam impossível a revolução pacífica tornam inevitável a revolução violenta”.

Não, isto não é uma história de criancinhas, como quer esperançosamente pensar Passos Coelho. Isto é política a sério, política dura, feita de escolhas difíceis, de opções que vão marcar os tempos. Coisas que os dirigentes europeus actuais já esqueceram. Mas quer eles queiram acreditar quer não, nada vai ficar na mesma. É impossível.
Expresso

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