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Por que razão Soares apoia Sócrates

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Regra geral, os homens que dizem não ter fé em Deus, quando são optimistas, têm tendência para ter excessiva fé nos homens. Sobretudo se forem amigos. Mário Soares é um optimista, isso distingue-o da larga maioria dos políticos. A sua coragem e convicção, somada ao extraordinário talento de acertar nos momentos essenciais, fizeram o que dele vai ficar para a história.

Ao longo de décadas mostrou ser um homem de nula propensão para falar de um mundo espiritual, a transcendência foi matéria que pouco ou nada lhe interessou, embora tenha mantido relações de enorme cumplicidade com papas, cardeais, bispos e padres. Nessa medida, nos dias após o 25 de Abril e durante o PREC, salvou a Igreja Católica das mãos radicais que ameaçavam repetir a dose de repressão anticlerical da Primeira República. Além disso, acolheu católicos progressistas no PS, que trouxeram aos socialistas um panache de tolerância que os distinguiria na comparação com a esquerda mais radical.

O tema é complexo, subjectivo, quase psicanalítico. No entanto, é legítimo levantar a questão da fé para entender o que não tem entendimento possível. A defesa que Mário Soares assumiu de José Sócrates não se pode explicar numa perspectiva racional, apenas num domínio muito próximo da fé e do que não é da razão. Um pouco como os comunistas quando, ao defenderem a Coreia do Norte, acreditam que o regime não é aquilo que o Ocidente apregoa. Ou dos velhos maoistas em relação a Mao Tse-Tung. Ou de José Saramago na sua retórica sobre Deus, uma retórica de negação em que utilizava a argumentação de um fervoroso crente.

Mário Soares não sabe se Sócrates é corrupto. Sabe o que o ex-primeiro-ministro lhe diz, e faz fé no que ele lhe diz. Os seus códigos são os da confiança pessoal e política, o resto é areia que a justiça, os jornalistas e a oposição atiram para os olhos do país. É uma crença parecida com outra qualquer, com a fé na aparição de Nossa Senhora, com a ideia da reencarnação para quem crê em Alan Kardec, com a profunda convicção das Testemunhas de Jeová de que as transfusões de sangue são proibidas pela lei divina.

Está no seu direito, mas é legítimo que eu tenha pena da sua exposição. Porque Mário Soares nos fez, aos crentes e não crentes em Deus, ter fé no ser humano, fé nos que são capazes de ser maiores, nos que contribuem para que o mundo seja melhor que o mundo que existia antes de terem nascido. Por isso a sua responsabilidade é maior. E ele sabe, como eu sei, que não pode ter a certeza da inocência de José Sócrates. Pode ser, pode não ser. E os indícios são demasiado fortes para que alguém ponha as mãos no fogo pelo ex- -primeiro-ministro. A não ser que Soares nos queira dizer outra coisa: que não tem fé nas instituições, no Estado de direito e nesta democracia. A não ser que esteja a usar Sócrates como instrumento para nos dizer que o combate da sua vida é o mesmo da sua juventude, a luta contra a ditadura. Uma outra ditadura. Talvez seja isso. Mas se o for será uma comparação exagerada e injusta. E apaixonadamente juvenil.

Luis Osório jornal i

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