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Bestas Invertidas

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“Se tourada é cultura, canibalismo é gastronomia.”

– António Victorino d’Almeida


Bestas Invertidas

A mutilação genital feminina é uma realidade, não só em países sub-desenvolvidos ditos de terceiro mundo, apesar de ser nestes que é mais criticada e julgada, talvez pelo sentimento de superioridade ocidental aliado a uma miopia muito selectiva. Esta é, contudo, uma tradição religiosa, embora algumas vezes seja apenas praticada por motivos culturais. Mais de 130 milhões de mulheres em todo o mundo, ocidental e não ocidental, são vítimas desta prática e presume-se que, em média, esta prática é aplicada a 2 milhões por ano. Os efeitos secundários danosos que poderão advir desta tradição vão desde infecções, devido à utilização de ferramentas não esterilizadas, até à morte por choque, causado pela ausência de qualquer tipo de anestesia e medicação, ou por hemorragia excessiva. Conta-se que cerca de um terço das mulheres que são submetidas a este rito não sobrevive para passar a mensagem do quão importante é a manutenção de tradições.

Creio que este pequeno bloco informativo invalida o argumento favorito dos apoiantes da tauromaquia: que a tourada é uma tradição e, como tal, deverá ser respeitada. São estes mesmos indivíduos cuja massa cinzenta, a existir, não foi abençoada de uma dose mínima de racionalidade que criticam estas já referidas tradições como bárbaras e desumanas. Poderão mesmo, até, afirmar de que a tourada é completamente diferente pois não se está a magoar de qualquer forma um ser humano semelhante mas sim um animal. Já sabíamos que estes seres não eram conhecidos pela sua capacidade de discernimento e muito menos pelo seu raciocínio lógico, por isso a sensação de superioridade que possuem perante tudo o que não se assemelhe consigo não surja como grande choque. Se de facto acreditam neste outro argumento da lei do mais forte, em que o homem, sendo superior naquele momento, ao touro, deverá por isso mesmo impor-se a ele e mutilá-lo a seu belo prazer, sendo louvado de seguida por isso mesmo, deveríamos ter manifestações e festas populares para todos os cães raivosos que atacam até à morte uma pessoa. Ora, o cão revelou-se o ser superior, o ser que foi capaz de pôr fim a uma vida; mais, uma vida considerada superior à sua. Teríamos cães, leões e demais animais carnívoros e/ou predadores elevados a heróis nacionais.

Na sociedade actual, é possível fazer a distinção entre ser senciente e não-senciente. É ainda possível, salvo qualquer transtorno psicológico severo, fazer a distinção entre o bem e o mal. Certamente, haverá sempre uma zona cinzenta; mas acho que a tortura de um animal pelo bel-prazer do espectador, sem qualquer utilidade prática, se coloca à vontade na área considerada má. E não, lamento, mas o argumento de que esta prática emprega muito boa gente que, de outra maneira, não teria emprego, também não funcionará. Se o meu único talento nesta vida fosse massacrar animais para compensar de alguma forma a minha falta de intelecto ou de pujança sexual, iria certamente procurar ajuda profissional e preferiria muito mais estar desempregada; preferencialmente sem qualquer ajuda estatal porque, convenhamos, não é preciso um QI de três dígitos para fazer algo que não envolva espetar bandarilhas num alvo que está numa situação, à partida, sem qualquer hipótese de vencer. Se, por outro lado, ainda não estiverem convencidos da inutilidade económica desta tradição e acharem que o turismo justifica a sua existência, deixem-me informar-vos de outra prática que atraí milhões de turistas todos os anos: a prostituição infantil. Portugal, não tendo esta última tradição, agarra-se com unhas e dentes à primeira. Porque não há nada melhor do que receber turistas que estão sedentos para ver sangue ser derramado e lidarem directamente com a morte em primeira mão; são tipos mesmo simpáticos, estes, daqueles que vos pagam um café antes de saberem o vosso nome e cuja principal preocupação é contribuir positivamente para o país que visitam.

Estamos a esgotar os argumentos pseudo-intelectuais, é um facto. Assim sendo, teremos de partir para os mais básicos, que poderiam ter sido tecidos por qualquer criança de 5 anos. Uma destas pérolas da argumentação é a de que a tourada é uma arte e que é bonita de se ver. Houve outrora um grupo de jovens altos e espadaúdos que achavam que o mais bonito era ser-se loiro, de olhos claros e igualmente espadaúdo; já perceberam, não foi? O que é bonito para mim pode ser, e geralmente é, muito diferente do que o é para outra pessoa. Assim como a liberdade de expressão é utilizada erroneamente por defensores tauromáquicos para a manutenção da tradição, é também algo que invalida este argumento. Mas tenho de confessar que entendo os aficionados neste aspecto. Pessoalmente, acho que seria muito bonito mesmo colocar estes ditos heróis toureiros na arena, em posição de igualdade para com o outro, e ver os gradientes e tons variados que o sangue destes produziria após serem esventrados pelo animal; mas, lá está, sei que isto é errado e ilegal, mesmo sendo estes animais inferiores a mim.

Partamos então para a inferioridade do animal. O touro não sente e, como tal, podemos fazer muito bem o que dele quisermos. Século XXI, meus caros. O Google é vosso amigo e facilmente vos explicará como um animal consegue sentir um dos sentimentos mais primordiais, automático e instintivo de sempre: dor. A não ser que queriam espetar bandarilhas numa couve, este argumento encontra-se, surpreendemente, invalidado. Mas não, repare, mesmo que ele sinta dor, ele é um bicho mau, agressivo, nasceu para este cenário violento. Um dos meus argumentos favoritos. Porque estou farta de ver notícias de touros que se juntam a gangues e rebentam com casas inteiras, violam as mulheres, obrigam os filhos a ver, e de seguida comem os maridos; com roupa e tudo. Porque achar que, numa situação onde um ser considerado por ele próprio superior àquele que está a confrontar agride-o indiscriminadamente só porque sim, podemos apelidar o segundo de violento faz todo o sentido; porque ser um brutamontes não é deixar um ser inferior à beira da morte, é sim defender-se com todos os meios de ser agredido e talvez morto. Não é instinto de defesa, é mesmo mau carácter, ruindade pura.

Estamos quase a terminar, já não falta tudo. Bem sei que a vossa inteligência se pode estar a sentir fortemente insultada com tamanha bestidão e ameaça ao raciocínio humano, mas estamos muito perto do fim. É um facto que o mundo está cheio de coisas horríveis a acontecerem simultaneamente e que todas essas coisas merecem a nossa atenção e esforço para corrigi-las. Contudo, se algo mau acontecesse, não passa a ser normal ou agradável só porque algo pior aconteceu noutro lado. Se uma mulher for violada, isso não será tido como aceitável pois em África tribos inteiras são violadas até à morte por guerrilheiros; viste, rapariga, até tiveste sorte. Isto é profundamente revoltante e estúpido, da mesma forma que dizer que a tourada “não é assim tão má” quando há gente a caçar espécies em vias de extinção noutros continentes. É algo mau e insultuoso na mesma e merece, como tal, um fim. Ainda para mais quando isto se passa num país que tem actualmente leis contra a violência para com animais mas que continua a fechar os olhos às tradições; quando me estiver a sentir mais stressada e quiser libertar a minha fúria e frustração, compro um touro, fatio-o todo e depois quero ver quem é que me vai prender por ter dado continuidade à mui nobre tradição portuguesa.

Quem é que já ouviu o argumento do “ninguém é obrigado a fazer x, só faz quem quer” ou o de “gostos não se discutem”? Provavelmente toda a gente que já tentou ter uma discussão com alguém com menos de 12 anos. Novamente, a liberdade de expressão, como já foi referido, não funciona só para um lado; se vamos aceitar a totalidade e prática deste argumento para permitir a existência desta tradição, temos de aceitar o seu outro lado, que indica que, a haver uma maioria que considera esta prática abominável, a minoria terá de começar a perceber que está a fazer algo errado. Podem gostar de o fazer, com certeza, mas entre o gostar e o agir há uma diferença enorme. Diferença essa que, curiosamente, separa os seres humanos dos restantes animais.

Por último, mas não com menor nível de estupidez, eis o derradeiro argumento para qualquer aficcionado da tauromaquia cuja capacidade de processar informação racional já abana desenfreadamente a bandeira branca: “deves ser vegetariano”. Eis o pináculo do retrocesso evolucionista na raça humana, o apogeu do energúmeno, a derradeira morte da última célula cerebral que vê assim o fim da sua existência desde sempre condenada à solidão. Se o leitor precisa que seja feito um esclarecimento sobre a ilogicidade e completo desenquadramento de tal insulto ao que se define como argumento então está do lado errado da barricada.

Após tamanho banquete de triste existência humana, só há uma posição a ter: mesmo com os golpes e demais maus-tratos, ser um touro será infinitesimamente melhor do que ser um herói a cavalo montado e de bandarilhas munido. Felizmente, cada vez mais se vai percebendo a diferença que existe entre respeito por cultura e por tradições nacionais. Ao passo que dificilmente haverá uma cultura melhor ou pior do que outra, há certamente tradições horríveis e outras que não o serão. Sendo que a tradição é algo mais efémero do que a cultura, não fará sentido encará-la como algo que deverá ser moldado para que a segunda exista, e não algo que deverá impor-se de toda e qualquer forma sobre algo muito mais durador? A cultura portuguesa é milenar; já assistiu a muitas tradições erguerem-se e desaparecem e permaneceu, como seria suposto, presente. A cultura portuguesa já assistiu à tradição de reprodução consanguínea entre membros de nobreza. Já assistiu à tradição de queimar os impuros praticantes de artes negras. E também assistiu ainda à tradição de entregar em asilos decrépitos ou mesmo à morte crianças com deficiências mentais que condicionariam o resto das suas vidas. A quantas culturas uma tradição já pode assistir? Com isto, é fácil ter uma visão optimista face ao futuro desta vergonha para as tradições de um país. Para as tradições, sim, mas nunca para a cultura. Porque da mesma forma que o touro não tem culpa de reagir agressivamente aquando em risco de vida, a cultura também não tem culpa de volta e meia dar origem a alguns degenerados cujo número de células cerebrais se iguala ao de uma ameba.

Escrito por Cláudia Costa

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