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«Soares não é o pai da democracia, isso é ridículo» Raquel Varela

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Estou a escrever sobre Soares. Fui ao baú do (muito) que investiguei sobre ele durante o biénio 1974-1975, a razão é que fiz a minha tese de doutoramento sobre o mito no qual Soares se ergue, o do que o PCP queria tomar o poder. O de que havia o perigo de Moscovo tomar conta do país. O PCP e Moscovo queriam Angola, aqui queriam direitos laborais e sociais. Não conteve, o PCP, um sector do seu partido e sobretudo não conteve o movimento de trabalhadores que construíram, contra o PCP e o PS, um poder dual no país contra o Estado - que aprovava uma lei e nas fábricas não se cumpria.

Bom, mas hoje é quase impossível perante os gritos de amor e ódio, veneração acrítica e infantilidades que tem quem desconhece a história, escrever - o ruído é quase esmagador. Há algo porém que posso já escrever. Soares não é o pai da democracia, isso é ridículo. Nem ele, com a sua maleabilidade de alianças, e táctica e paciência, jamais aceitaria tal designação. Porque isso transforma a democracia numa oligarquia unipessoal. Contra a qual ele, que eu não apoio nem nunca apoiei, lutou. Porque Soares era um defensor do capitalismo regulado, social democrata, contra uma direita que era a favor do capitalismo com uma ditadura, que pela proibição de partidos e sindicatos regulava o preço do salário.

O sonho de Soares - capitalismo de rosto humano, pacto social entre lucros e salários - ruiu com ele vivo, em 2008, mas que ele acreditava nisso, acreditava. Nunca acreditou em poderes pessoais. Chamar-lhe «pai da democracia» não é um exagero da hora da morte, quem nos dera que fosse só isso! Esta ideia de «obrigada, pai da democracia», uma democracia que tem origem em 13 anos de luta dos trabalhadores forçados das colónias, dezenas de milhar de mortos negros e quase 10 mil portugueses, para defender o grupo CUF e mais 4 famílias, lutas dentro do exército - o MFA não arriscou a prisão mas a vida! - e direitos conquistados nas ruas (vou repetir, os direitos democráticos, de associação, reunião, etc, foram conquistados nas ruas!) é o que ainda temos do país de Salazar. À procura do paizinho, ....sempre de costas dobradas a agradecer ao poder.


Raquel Varela
Historiadora

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