Portugal Glorioso: Lendas
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A Lenda da Sopa da Pedra

 ● 26/12/17 coment


Tal como quase todos os costumes, tradições e também gastronomia regional,
a Sopa da Pedra tem uma lenda associada...

Um frade andava no peditório.
Chegou à porta de um lavrador, não lhe quiseram aí dar esmola.
O frade estava a cair com fome, e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra!
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança.
Perguntou o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
- Sempre queremos ver isso!
Responderam-lhe.

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:
- Se me emprestassem aí um pucarinho.
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, tornou ele:
- Com um bocadinho de unto, é que o caldo ficava um primor!
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada pelo que via. Dizia o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso. Bem precisava de uma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou e afirmou:
- Agora é que, com uns olhinhos de couve o caldo ficava que até os anjos o comeriam!
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras.
O frade limpou-as e ripou-as com os dedos, deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça.

Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforje pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era uma regalo. Comeu e lambeu o beiço. Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou:
- Ó senhor frade, então a pedra?
Resposta do frade:
- A pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez.

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Lenda de Folgosinho de Ar

 ● 24/04/15 coment

Folgosinho

Não sei se conhece Folgosinho, caro leitor… se sabe onde fica Folgosinho... Há quem lhe chame Folgosinho da Serra, pela sua situação privilegiada no alto dos Montes Hermínios.(1) De qualquer modo, trata-se de uma terra portuguesa com fortes e profundas raízes na nossa História. E, segundo rezam velhas crónicas, foi aqui que nasceu precisamente esse gigante semilendário que se chamou Viriato.(2)

Depois de Viriato ter deixado ali gravada a sua passagem, o monte continuou a ser o mesmo que dantes era. E só muito tempo decorrido - dizem uns, com D. Afonso Henriques; opinam outros, com D. Sancho I - o monte se tornou terra habitável como povoação de certa importância, impondo aos visitantes esta legenda bem significativa: «Água da serra, soldado para a guerra».

E agora vou contar-lhes a história que me contaram...

Naquele dia, el-rei de Portugal, na sua tarefa insana de conquistar novas terras aos Mouros, sentia-se satisfeito e extenuado, simultaneamente. Satisfeito, porque as presas tinham sido boas. Extenuado, porque as corridas pela serra sempre obrigavam a grande esforço.
Assim, deu uma ordem que imediatamente se espalhou em redor:
— Parai!... Parai por uma vez!... Eles já fogem de mais para que os possamos agarrar!
E sorrindo, orgulhoso do seu feito e dos resultados alcançados, acentuou:
— Bem nos bastam os que ficaram aqui...
Porém um dos seus homens de confiança adiantou-se e disse com entusiasmo:
— Meu senhor, há ainda muita moirama viva!... Permiti, senhor meu rei, que a persiga!
El-rei de Portugal fitou-o de sobrecenho carregado.
— Não! Já disse que não!... Não me ouvistes, Pêro Vasques?
Depois passou o olhar sereno e altivo sobre os que escutavam. Lentamente. Autoritariamente.
— Loucuras, não as quero!... Preciso de todos os homens valentes, como vós sois!
Pêro Vasques, embora de má vontade, desceu da sua montada, devagar, e exclamou numa voz indefinida:
— Graças, senhor meu rei... Farei o que me ordenares.
E, num sorriso meio de troça meio de despeito, ajuntou:
— Descansarei... como se precisasse de descanso!
El-rei de Portugal olhou-o numa expressão de soberana altivez.
— Pois se não precisais... preciso eu!

Ali, no sopé da serra, enquanto a noite se estendia sobre os homens acampados que rodeavam el-rei D. Afonso, o calor ensombrava-os também, roubando-lhes energias e vontades.
Parecia até que o Sol se prolongava na própria Lua — pois nem uma brisa corria, nem as trevas serviam de refúgio.
D. Afonso Henriques e os homens que o acompanhavam mal conseguiram dormir.
De repente, as gargalhadas de D. Pêro Vasques cortaram o silêncio da noite.
— Quieta!... Quietinha, minha cabrita montesa!... Com que então querias fugir-me a tempo?
De seguida, abriu-se todo numa gargalhada sem fim.
— De mim, ninguém foge… Quieta, já te disse!
Porque o silêncio da noite fora cortado, destruído, logo apareceu el-rei, sempre atento e pronto para todos os acontecimentos inesperados.
E perguntou, num tom áspero:
— Pêro Vasques, que barulho é este?... Achais ainda pouco o inferno do calor, para sermos obrigados a suportar as vossas brincadeiras?
Pêro Vasques adiantou-se. Solene. Resoluto.
— Senhor, perdoai, mas capturei para vós uma boa presa!
E empurrou uma rapariga para a frente. El-rei mirou-a. Surpreendido. Preocupado.
— Uma rapariga a estas horas?... Onde a encontrastes, Pêro Vasques?
O cavaleiro aproximou-se mais.
— É uma espia da maldita moirama, senhor meu rei. Andava aqui mui cerca do acampamento. Eu descobri-a… e quando ela quis fugir... já era tarde!
Pêro Vasques fechou o seu depoimento com uma gargalhada. Mas D. Afonso Henriques, olhando a frágil figura encolhida a seus pés, ainda pretendeu encontrar uma justificação.
— Que fazias tu aqui, a estas horas da noite?
Ela baixou a cabeça. Com raiva. Com destemor.
— Não direi nem uma palavra a nenhum dos dois... Quero falar com el-rei!
Houve um momento de perturbação. Eles entreolharam-se. Depois, Pêro Vasques não conseguiu manter a calma.
— Ouvistes, Senhor?... Somente quer falar com el-rei.
E, apontando-a, quase estiraçada no solo, o nobre cavaleiro português comentou:
— Voz de víbora em corpo de gazela... Cuidado com ela, Senhor!

O monarca português obrigou a rapariga a erguer-se.
— Que queres tu dizer ao rei?
Ela olhou-o, numa expressão de ódio e de desconfiança.
— Levai-me diante dele... Depois o sabereis!
Então D. Afonso perdeu a paciência, segundo conta a lenda antiga.
— Pois falai, e falai depressa... porque o rei sou eu!
Embora segura, fortemente segura, a rapariga recuou num sincero movimento de pasmo.
— Vós, Senhor!... Sois vós?
Logo Pêro Vasques a atirou de novo para a frente, num impulso de violência. E disse, numa nova mistura de riso e gritaria:
— Vede como ela se espanta, senhor meu rei!... Agora já não sabe que dizer, nem como explicar o que se passa.
Mas a prisioneira teve um gesto de brio. Libertou-se das mãos que a seguravam. Avançou num ar de revolta e de confiança em si própria. E disse com voz firme:
— Enganais-vos!... O que tenho a dizer é bem simples.
E logo, sem qualquer espécie de hesitação, voltou-se para D. Afonso e explicou:
— Senhor meu rei... Sou uma pobre rapariga do alto da serra... Soube que o meu rei precisava de bom ar, de ar puro... Por isso, Senhor, venho buscar-vos. Na minha terra, lá bem no alto, tereis o que procurais.
Pêro Vasques não se conseguiu conter. O seu génio impulsivo tinha de desabafar. E desabafou:
— Cala-te!... O que tu queres é atrair o nosso rei a uma cilada!
Porém, el-rei de Portugal fingiu que nada ouvira. E perguntou apenas à pobre rapariga que continuava ajoelhada a seus pés:
— Bem. Vamos lá a saber: onde é o sítio que tu dizes?
Ela apontou para o alto da serra da Estrela.
— É ali... Naquela terra quase junto ao céu, como nós costumamos dizer.
E, sempre de braço estendido, ela ajuntou ainda:
— Contavam meu pai... e o pai de meu pai... que aquela terra, além fora do grande Viriato!
El-rei levantou o olhar até aos contrafortes da serra.
— Pois também quero conhecer a terra de Viriato!
Pêro Vasques tornou a avançar. Agora sem rir.
— Senhor, pensai bem!... Talvez seja uma imprudência... Eu penso que…
Mas D. Afonso interrompeu-o:
— Que se cumprem as minhas ordens! Dai abrigo a esta rapariga. É assim que romper a alva, ela nos guiará à sua terra… a terra de Viriato!

Tal como ele ordenara, mal despontaram no horizonte os primeiros raios de sol, os homens d’el-rei de Portugal voltaram a pôr-se em marcha, serra acima.
A viagem foi longa e penosa. Pelos atalhos ásperos da serra, os soldados, já violentados pelo calor, cada vez mais forte, rogavam pragas surdas de revolta. Ai deles, se não fosse a chefiá-los o próprio rei de Portugal, com o seu pulso de ferro e a sua vontade indomável!...
A certa altura, o próprio monarca chegou a hesitar.
— Diz-me, rapariga… falta ainda muito?
E ela, fresca, saltitante, como se tivesse começado a jornada nesse mesmo momento, respondeu, solícita e sorridente:
— Senhor meu rei... é já ali… no voltar daquela curva...
Pêro Vasques resmungou, olhando-a de soslaio:
— Ah, pérfida cabrita montesa!... Já disseste isso pelo menos vinte vezes… e nós ainda não chegámos!
E rematou com raiva:
— Se o meu rei me deixasse, eu te obrigaria a falar verdade asinha...
Ela ripostou prontamente:
— Falando verdade estou eu, Senhor. Vinde comigo e vereis como é certo.
Então, o outro perdeu a paciência.
— Senhor meu rei, permiti que vos rogue mais uma vez: tende cuidado!... Tudo isto pode ser uma cilada miserável, armada por esta diabólica rapariga!
D. Afonso sorriu, apesar do cansaço. Sorriu e comentou:
— Vós chamais-lhe diabólica, Pêro Vasques... Eu acho-a angelical... Até me parece que foi enviada por Nossa Senhora, padroeira do Reino.
E, num tom sem réplica, acrescentou ainda:
— Acho que a devemos seguir sem temor!
O outro limitou-se a baixar a cabeça.
— Sois vós o rei... Fazei o que achardes melhor!
A marcha recomeçou, agora com redobrada vontade de chegar depressa.
— Vamos, donzela da serra... Oxalá que falte pouco, na verdade!
A rapariga estendeu o braço, a apontar o horizonte.
— Já vos disse, senhor meu rei... É para além daquela última curva do caminho... Repito-vos, Senhor: vinde comigo e vereis como é certo!

E el-rei de Portugal lá foi acompanhando a rapariga, quase lado a lado.
E dessa vez foi mesmo certo, conta-nos a história de antanho... Para além da última curva da ladeira, abrupta e difícil, erguia-se o monte de pedras onde a rapariga vivia...
D. Afonso Heuriques foi, como sempre, o primeiro a chegar ao alto, logo seguido pelo valente e fiel Pêro Vasques.
— Meu Deus, que paisagem deslumbrante! Que ar magnífico! Vedes, Pêro Vasques? Vedes, com os vossos próprios olhos?...
O outro aquiesceu. Mas continuou desconfiado e atento, apesar de tudo.
— Vejo, sim, meu senhor... porém o sítio parece-me próprio para uma cilada... Voltemos para trás, senhor meu rei, e quanto mais depressa melhor!
— Calai-vos, por Deus, Pêro Vasques!... Isto é um presente do Céu!
E Pêro Vasques calou-se. Compreendia que nada faria demover el-rei. Nada, a não ser a sede...
— Ah, se houvesse aqui também um pouco de água!...
Num instante, a rapariga reapareceu junto dele.
— Meu rei, água também haverá, já que a desejais... Fazei das vossas mãos uma concha e acercai-vos deste penedo...
El-rei assim fez. Mas também duvidoso...
De súbito, a rapariga caiu de joelhos. Parecia em êxtase. Murmurou misticamente, de mãos postas em jeito de oração, de olhos fitos na rocha dura da serra:
— Aqui viveu o grande Viriato... Aqui matará a sede el-rei de Portugal!
E logo, como que por milagre, do penedo começou a correr água... Água boa, cristalina, fresca, apetitosa, pura e saudável. Água da Serra! (3)

Todos beberam sofregamente. Até o próprio Pêro Vasques, que parecia agora convertido ao poder maravilhoso da estranha rapariga.
E foi então que el-rei de Portugal, abrindo os braços e espraiando o olhar sobre os montes, disse a frase que ficou eternizada pelos séculos:
— Descansemos aqui... e vamos todos tomar um folgosinho de ar! (4)

Conta-se que D. Afonso Henriques e os seus homens, depois de tomarem esse folgosinho de ar abençoado, abalaram por aí fora, com novas forças, limpando as terras da maldita moirama...
Atrás, no alto da serra, ficou apenas uma rapariguita, figura da Terra ou do Céu, murmurando com voz de profecia:
— Água da serra, soldado para a guerra... Folgosinho! Folgosinho! Folgosinho! (5)

E assim nasceu, a doze quilómetros de Gouveia e nas abas da serra da Estrela, a freguesia de Folgosinho, que ainda hoje lá tem a sua celebrada fonte do Gorgulhão, emoldurada por versos dos Lusíadas.

(Fonte: Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 223-228)
* * * *
Notas e comentários

(1) - Montes Hernínios - Designação primitiva da serra da Estrela, com origem no nome que lhe deram os romanos quando ocuparam a Lusitânia. Mons Hermínius. Hermínio significa «áspero, bravio, selvagem»

(2) - Viriato - O famoso caudilho Lusitano viveu no século II antes de Cristo. Tomou a chefia do seu povo, num momento crítico da História, depois do terrível morticínio levado a efeito pelo exército de Sérvio Galba, governador da Província Ulterior. Em breve Viriato, antigo pastor dos Montes Hermínios, era temido em Roma, pela sua valentia e pela sua audácia. E em breve também ele dominava não só a Província Ulterior mas também a Província Citerior. Só à traição o conseguiram vencer, matando-o miseravelmente quando ele dormia na sua tenda de campanha. Segundo é tradição de séculos em Folgosinho, Viriato nasceu ali mesmo.

(3) - Água da Serra - Diz-se que a água brotou inesperadamente da própria serra na fonte que ainda hoje existe e à qual o povo de Folgosinho chama a Fonte de Gorgulhão.

(4) - Folgosinho de Ar - Segundo a voz da tradição (e todas as versões, orais e escritas, são unânimes em mantê-la) as palavras de el-rei de Portugal teriam sido precisamente estas: «Tomemos aqui um folgozinho de ar»

(5) - Água da serra, soldado para a guerra - Lá está ainda hoje, em Folgosinho, uma lápide com essas palavras.

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Lenda das Cruzes de Barcelos

 ● 22/03/15 coment


No ano de 1504, vivam em Barcelos dois homens que se odiavam: o sapateiro João Pires e o fidalgo D. Pedro Martins.

João Pires tinha uma filha, a Luisinha a quem o fidalgo, galanteador incorrigível, perseguia constantemente com os seus galanteios. Um dia, quando a jovem foi buscar água à fonte, D. Pedro Martins saiu-lhe ao caminho e só a pronta intervenção do sapateiro evitou o pior... Duas valentes bofetadas de João Pires ficaram marcadas no rosto do fidalgo, como se tivessem sido impressas a fogo.

A chacota do povo nos tempos que se seguiram só veio acirrar ainda mais o desejo de vingança do fidalgo contra o sapateiro e a sua filha.

Num dia de grande tempestade, um barco vindo da Flandres naufragou na costa de Esposende, perto de Barcelos.

Quando as mulheres acorreram à praia para recolher os despojos, Luisinha encontrou enterrado na areia um pedaço de madeira que tinha um calor estranho e exalava um exótico perfume. Chegada a casa lançou o bocado de madeira ao fogo e algo de extraordinário aconteceu: a casa encheu-se de uma claridade estranha e no solo de terra batida ficou desenhada uma cruz luminosa. Por mais que se escavasse a terra naquele local onde a cruz luminosa se projectava, a cova voltava a encher-se de terra.

A notícia do milagre correu por toda a cidade e a casa do sapateiro passou a ser um local de peregrinação. Apenas o fidalgo, D. Pedro Martins não acreditou e acusou o sapateiro e a filha de embusteiros e bruxos, afirmando que os dois deveriam ser atirados à fogueira.

Estas acusações ganharam cada vez mais adeptos que acompanharam D.Pedro Martins até à porta do sapateiro e, quando este se preparava para o acusar injustamente invocando o nome de Deus, a mesma cruz luminosa apareceu. O fidalgo caiu humildemente de joelhos e pediu perdão a Deus, depois ordens para que começasse a construir um templo em acção de graças pelo milagre.

Diz a lenda que as marcas das mãos do sapateiro desapareceram-lhe do rosto naquele mesmo momento. Foi este milagre que deu origem a uma ermida anterior à actual igreja e também à famosa romaria da Feira das Cruzes de Barcelos.
(Lendas de Portugal)
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Lendas de Portugal - A Inês Negra de Melgaço

 ● 08/03/15 coment
Estátua de Inês Negra em Melgaço do escultor José Rodrigues.

Esta história teve lugar em 1388, no início do reinado de D. João I, em que se travou uma guerra contra Castela pela independência de Portugal. Uma contenda onde sobressaíram os feitos do Condestável Nuno Álvares Pereira e de muitos nobres portugueses, dividindo a aristocracia e o povo português, tomando muitas terras o partido de Castela.

Foi durante esta guerra civil que a Inês Negra, uma mulher do povo fiel à causa portuguesa, abandonou Melgaço quando esta cidade se pôs ao lado do rei de Castela. Quando D. João I decidiu reconquistar Melgaço, Inês Negra juntou-se ao seu exército, mas as duas facções nunca chegaram a defrontar-se. A batalha travou-se entre Inês Negra e uma sua inimiga de longa data, a "Arrenegada", que tinha optado por apoiar os castelhanos.

Diz a lenda que a "Arrenegada" desafiou Inês Negra do alto das muralhas, propondo que a contenda fosse resolvida entre ambas com o acordo do exército castelhano. D. João I assistiu espantado à resposta de Inês Negra que dizia aceitar o desafio.

Ambos os exércitos concordaram com este duelo e a Inês Negra, de espada na mão, defrontou a sua inimiga apoiada pelos gritos de incitamento dos homens de D. João I.
O silêncio instalou-se quando a "Arrenegada" fez saltar com um golpe a espada das mãos de Inês, mas esta tirou uma forquilha da mão de um camponês e fez-se à luta, procurando atingir a "Arrenegada" nas pernas.
Sentindo-se em desvantagem, esta atirou fora a espada e pegou num varapau que quebrou com fúria nas costas de Inês. Louca de fúria e de dor, Inês Negra largou a forquilha e atirou-se com unhas e dentes à sua oponente, rolando ambas no chão empoeirado.

Um grito de dor gelou a assistência, que não conseguia perceber qual das duas vencera. Foi então que a "Arrenegada" se levantou e fugiu para o castelo, tapando as nódoas e o sangue do rosto com as mãos.
Os castelhanos abandonaram Melgaço no dia seguinte e D. João I quis recompensar a heroína, mas esta respondeu que estava plenamente recompensada pela sova que tinha dado à sua inimiga.
https://lendasdeportugal.no.sapo.pt/

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Lenda da Boa Nova e a Fonte Santa

 ● 06/02/15 coment


Perto do Alandroal onde fica Terena, aldeia orgulhosa do seu Pelourinho. Pois vamos contar a lenda da fundação da igreja de Nossa Senhora da Boa Nova, que é anterior ao castelo,este mandado fazer pelo rei D.Dinis, o lavrador-trovador.  Porém, temos duas versões da lenda,o que por si só é já interessante.

Pois a primeira diz-nos que a filha de D. Afonso IV, o BRAVO, era casada com o rei de Castela, mas genro e o sogro não se entendiam. Ora, de uma vez, os mouros atacaram os castelhanos, e a Rainha de Castela e princesa portuguesa deslocou-se a Portugal para pedir auxílio ao pai.

Sobre a viagem, é contado que, já em território português, repousando no Alandroal, assistiu a um belo amanhecer e logo lhe deu o nome de Lucefécit, que quer dizer «luz se fez».

Dali, a Rainha mandou um emissário a Évora, onde estava a corte de D. Afonso IV, suplicando-lhe que apoiasse o marido. O pai respondeu afirmativamente, e a alegria foi tal, que a Rainha mandou edificar ali perto em Terena, uma igreja a que deu o nome de Nossa Senhora da Boa Nova.

No entanto, na segunda versão da lenda, o rei terá mandado dizer a filha que não apoiava o genro. Porém, logo a seguir, D.Afonso IV reconsiderou, mudando de opinião e apressou-se a enviar dois cavaleiros a toda a brida, que foram encontrar a rainha de Castela em Terena. Exactamente  no sítio em que ainda hoje vemos a cruz que assinala esse mesmo encontro. Perguntou-lhes ela ao que vinham e responderam os cavaleiros:
- Boa nova temos Senhora. O vosso pai acede ao vosso pedido e vai em breve com o exército Português combater os mouros! (1)

A rainha ajoelhou-se e disse que, perante a resposta de seu Pai e rei de Portugal, ali mesmo mandaria construir um templo sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Nova. E, valha a verdade histórica, acabou mesmo por cumprir esta promessa.




Existe ainda uma outra lenda no Alandroal em que se diz que numa prisão junto ao mar havia um homem algemado de pés e mãos.  Ele dizia-se inocente, mas ninguém o acreditava.
Ora um dia, o carcereiro foi levar-lhe comida e viu que as algemas tinham desaparecido, embora o preso lá estivesse. Porém, este dizia que não sabia o que se passara, reiterando a sua inocência. Dias a fio os guardas algemaram-no, mas as algemas desapareciam.
Passados tempos nisto, o preso disse que as algemas haviam ido parar a Terena, podendo ser encontradas na igreja de Nossa Senhora da Boa Nova.
E não é que estavam mesmo?!
Acreditando então  na sua inocência as autoridades soltaram-no.

E, por fim,  uma terceira lenda que se refere à cruz do encontro. É sobre a ermida de Nossa Senhora da Fonte Santa. É sobre a Ermida de Nossa Senhora da Fonte Santa.
Pois para  lugar deste tinha sido escolhido num alto, ao pé da estrada, vindo do lado da vila do Alandroal,onde hoje está a tal cruz.  Logo logo no início, os alvenéus colocavam os materiais para a edificação naquele ponto e, na manhã seguinte, eles apareciam onde hoje está o pequeno templo. Quanto à massa, essa ficava no mesmo sítio, mas tão dura que não servia para nada!
Ao cabo de alguns dias de tentativas, os construtores renderam-se ao sítio da vontade divina e foram compensados com o aparecimento de uma fonte - santa fonte! -  que jorrava para a ribeira...

(1) Tratou-se da Batalha do Salado (30 de Outubro de 1340) onde o nosso BRAVO  se cobriu de glória, ajudando o seu "pérfido genro que maltratava a sua filha" a derrotar os mouros.  E bem avisado estava porque, caso os mouros vencessem, tinha-mo-los  à perna no Algarve, e não só...
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Lendas históricas: A mula da Rainha Santa

 ● 06/01/15 coment
A Rainha Santa a que se refere esta lenda é Dª. Mafalda, filha preferida de D. Sancho I e a irmã favorita de D. Afonso II.

A jovem princesa era bela e perfeita como poucas e senhora de uma esmerada educação.
Naquele tempo, subiu ao trono de Castela D. Henrique, uma criança de doze anos apenas, facilmente manobrada pelo seu tutor, Álvaro de Lara, que queria governar através do jovem rei. Querendo-lhe dar como esposa uma mulher que o dominasse quando fosse adulto, escolheu D. Mafalda e o casamento celebrou-se.



Dª. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei aos 14 anos. D. Mafalda regressou a Portugal virgem e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "Rainha".

Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja. Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto, cujos habitantes queriam que D. Mafalda fosse sepultada nessa mesma terra.
Mas em Arouca discordavam, porque era no Mosteiro que ela vivia e na sua igreja deveria repousar o seu corpo para sempre.

Estava a discórdia instalada quando alguém se lembrou de dizer que se pusesse o caixão em cima da mula em que a Infanta costuma viajar e para onde o animal se dirigisse seria o local onde seria sepultada. A mula não teve dúvidas e quando chegou à igreja do Mosteiro de Arouca, acercou-se do altar de S. Pedro e aí morreu.

O sepulcro de Dª. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos.
Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.


Fonte; Lendas de Portugal
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Arruda dos Vinhos, verdades e lendas

 ● 14/12/14 coment

O Prof. José Hermano Saraiva conta-nos, como só ele sabe, da história de Arruda, de lendas e de bruxas que lhe estão associadas.








Horizontes da Memória - Arruda, Verdade e Lenda




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Afonso Henriques e o milagre de Cárquere, sim ou não?

 ● 08/12/14 coment
Para quem se interessa por factos e lendas da nossa História, passo de seguida esta bela prosa que, na minha opinião, é a melhor explicação que já li sobre o que teria acontecido a respeito do nascimento de D.Afonso Henriques.

O "Milagre" de Cárquere: facto histórico, lenda ou embuste?


Fruto de uma investigação aturada, o Dr. Joaquim Correia apresentou, no dia 9 do passado mês de Abril 2008, à Academia Portuguesa de História, de que é membro, uma importante comunicação sobre a “cura milagrosa” do nosso primeiro rei. A ilustre assembleia foi confrontada com a importância e o papel de Cárquere nos primórdios da nacionalidade. Este apontamento pretende dar conta de alguns dados dessa prelecção.

Breve contextualização histórica de Cárquere
Esta freguesia testemunhou a fixação de diferentes povos ao longo da sua história. Há fortes evidências de ter existido um antigo castro pré-celta no outeiro, designado de Medorno ou Medorro situado junto da igreja e do mosteiro. Os romanos, aqui chegados no século II a. C., estabeleceram neste local um “oppidum” (povoação fortificada). Da sua presença chegaram até nós importantes vestígios de que se destacam inúmeras moedas e várias lápides funerárias. Nestas proximidades, em Caldas de Aregos, passava, aliás, a famosa “Via Caurium”, que ligava Mérida a Braga, o que explica a forte colonização romana do nosso concelho. Neste contexto, não é descabida a referência de Frei Teodoro de Melo, em manuscrito de 1733, a uma estatueta de Diana, descoberta por uns “rústicos” que trabalhavam para os padres Jesuítas em Cárquere.

Sendo assim, parece justificada a existência de um pequeno e rude templo em honra da deusa das florestas e da caça. Com a cristianização destas terras, que deve ter acontecido ao longo do século VI, registou-se a fundação de pequenas paróquias e a construção de pequenos templos.

Assim aconteceu em Cárquere, datando o seu primeiro templo, ao que tudo leva a supor, da época suevo-visigótica. E por analogia com o que sempre aconteceu ao longo da história, é provável que tivesse sido erguido a partir da transformação/reconstrução do templo pagão, tendo-se operado a substituição do culto de Diana por Santa Maria, Mãe de Jesus Cristo.

A corroborar esta tese, há a preciosa escultura em marfim, de 29mm de altura e 14 de base, representando uma Senhora com o Menino, cujas formas e expressões denunciam ser obra muita antiga, talvez da época visigótica.

Há indícios que sugerem ter sido Cárquere um centro intenso de espiritualidade e de difusão religiosa, tendo esta imagem sido venerada com especial devoção. Por altura das invasões sarracenas, a mesma terá possivelmente sido escondida, tendo sido posta a descoberto aquando da reconquista cristã, reiniciando-se, a partir de então e ainda com mais afinco, a antiga devoção a Santa Maria (de Cárquere).


A "cura milagrosa"
É neste local de sobreposição de cultos, de sortilégios, da redescoberta da imagem ancestral de Nossa Senhora e do reencontro com a Sua devoção que acontece o “milagre”. Sendo D. Egas Moniz, senhor de Ribadouro e com Paço em Resende, pessoa da máxima confiança do Conde D. Henrique, este constituiu-o aio do seu filho Afonso Henriques, ficando com a incumbência de o criar e educar.

Conta-se que a criança sofria de uma malformação das pernas, o que constituía uma grande preocupação para Egas Moniz. E a cura só poderia vir por intervenção divina. É natural que as orações se dirigissem para Nossa Senhora/Santa Maria, cuja imagem era muito venerada ali bem perto. Até que um dia, encontrando-se no seu Paço de Resende, esta lhe apareceu em sonhos, dizendo-lhe que caminhasse até Cárquere, colocasse a criança em cima do seu altar e lhe acendesse duas velas. E assim fez.

Mas um facto inesperado aconteceu. Cansado e dormente, só o príncipe se deu conta que uma das velas caíra e pegara fogo às toalhas e ao altar. A fim de evitar o alastramento do incêndio, é impelido a agir, deslocando-se para apagar as chamas. E é nesse instante que se sente curado.

Esta é a tradição que tem atravessado gerações, encontrando-se bem enraizada na nossa região. A par disso, este “milagre” encontra-se referenciado em diversos cronistas do século XVI e XVII.

Inconsistência da tradição popular e dos relatos dos cronistas
Muitos autores não dão credibilidade a estes textos, por terem sido escritos quatro ou cinco séculos depois do suposto milagre. Acham inverosímil que este facto não tivesse sido devidamente anotado nos documentos da época, pois supostamente permitiu levar Portugal à independência.

Um rei portador de uma enfermidade nunca poderia levar avante tão insigne e dificílima tarefa. Muitos alegam também que as crónicas foram fabricadas, pois foram redigidas por frades ou monges integrantes de ordens ou famílias monásticas que estiveram na posse do Mosteiro de Cárquere, sendo parte interessada no seu engrandecimento.

Os detractores da tese do milagre identificam ainda algumas contradições de datas, tais como a que situa a cura aos cinco anos, em memória da qual Conde D. Henrique mandou erigir a igreja, quando a “Crónica dos Godos”atesta que este faleceu quando o filho tinha apenas dois anos. Por fim, há quem negue que Egas Moniz tivesse sido senhor destas terras e que D. Afonso Henriques aqui tivesse permanecido.

Argumentos a favor
O Dr. Joaquim Correia Duarte rebate estes argumentos com base em vários dados de que se enumeram brevemente os seguintes. Em primeiro lugar, convém realçar que ninguém apareceu até hoje a negar a deficiência.

Quanto à passagem a escrito do eventual milagre, é bom recordar que, nos primeiros tempos da nacionalidade, não havia os chamados cronistas do reino. O primeiro a surgir foi Fernão Lopes, que se incumbiu de tal tarefa por ordem de D. Duarte, datada de 19 de Março de 1434. De qualquer forma, nada nos garante que tivesse havido um relato escrito, tendo-se perdido com o tempo.

Convém, no entanto, realçar que muito do que sabemos sobre os primeiros tempos da nossa história foi pela via dos nobiliários, hagiógrafos e cronicões do século XIV e cronistas dos séculos XVI e XVII. E quanto ao crédito que devem merecer, a questão deve ser ponderada. Na verdade, há relatos de exageros e inverdades, mesmo por parte dos “cronistas por ofício”. O facto de serem remunerados e, por vezes, cumulados de honrarias propiciava descrições não correspondentes aos factos.

Contudo, há que separar o trigo do joio. Alexandre Herculano confiou, por exemplo, na obra de Frei António Brandão, historiador de Alcobaça da era de seiscentos, a quem chamou “um ilustre restaurador da história pátria”, servindo-se dos seus documentos para redigir a sua História de Portugal. O mesmo não aconteceu com Bernardo de Brito, cuja obra caracterizou de “altamente ridícula”.

Ora, António Brandão refere-se ao “milagre de Cárquere”, citando duas antiquíssimas “Comemorações” em louvor de D. Afonso Henriques, que ele próprio teve em mão: uma, escrita em pergaminho, tendo-a visto no Mosteiro de Lorvão, e a outra no Mosteiro de Alcobaça. E estes Mosteiros não tinham qualquer interesse em forjar o milagre, já que nada tinham a ver com Cárquere.

E importa perguntar: Como é que em Lorvão e Alcobaça se sabia do “milagre” tantos anos antes de ser “inventado” pelos cronistas? Por sua vez, a questão das datas tem de ser relativizada, pois não é credível que o Conde D. Henrique confiasse as tarefas e responsabilidade nem transmitisse as recomendações, constantes do Nobiliário de D. Pedro e das Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra, a uma criança de dois anos e, ainda por cima, doente e incapaz. Aliás as contradições dos investigadores relativamente a alguns aspectos da vida do nosso primeiro rei são frequentes, designadamente a data e o lugar do seu nascimento.

Quanto à estadia de D. Egas Moniz na região de Ribadouro, há alguma unanimidade a este respeito, pois possuía aqui grandes bens patrimoniais e parece ter dominado várias revoltas da população árabe na zona de Lamego, o que lhe terá valido a confiança do Conde e da mulher e um papel ímpar na corte. Esta relação de amizade poderá justificar a responsabilidade e o papel de aio do príncipe herdeiro.

Infanticídio e troca de crianças
Esta é uma hipótese muito difundida pelo país para contradizer o milagre, sendo aceite por muita gente. Tem origem num artigo de Santana Dionísio, escrito n “O Primeiro de Janeiro” de 12 de Janeiro de 1969, onde o autor sugere que o príncipe deficiente foi eliminado, tendo sido substituído por um filho saudável e robusto de Egas Moniz.

O suposto milagre de Cárquere teria sido apenas uma invenção ardilosa para encobrir este facto. Esta versão foi suavizada, falando-se actualmente de uma troca de crianças, ficando D. Egas Moniz com uma criança enfermiça e o Conde D. Henrique com uma outra forte e saudável.

Esta hipótese não está documentada nem tem atrás de si qualquer tradição. Nem parece consistente. A honestidade e a honradez de Egas Moniz e do Conde D. Henrique não são compatíveis com a troca de crianças e muito menos com o infanticídio. Além disso, como explicar a inexistência de reivindicações de poder por parte de outros filhos do Conde D. Henrique e o silêncio de D. Teresa na batalha de S. Mamede, sabendo que o responsável da revolta não era filho do casal?

Onde está o milagre?
O Dr. Joaquim Correia Duarte refere na sua comunicação que ninguém pode afirmar nem ninguém pode negar o milagre. Todavia, os argumentos a favor, em seu entendimento, são mais credíveis, embora não existam documentos nem provas irrefutáveis.

A sua opinião é a de que “pode não ter havido um milagre assim tão claro, tão aparatoso, tão radical e tão rápido; pode e deve haver ampliação e exagero, tanto no que aconteceu como no modo como as coisas ocorreram, mas alguma coisa se passou, e muito séria, e com isso se relaciona Cárquere, a sua Igreja e o seu Mosteiro”.

Embora se desconheça o alcance e a natureza da enfermidade, a envolvência religiosa, a auréola do local e a eventual fama de ocorrências extraordinárias propiciavam condições e criavam mecanismos para a cura de pequenos e grandes males.

Qualquer transformação e acontecimento inexplicado eram interpretados, à luz da mundivisão religiosa de então, como milagre, que o tempo ajudava a colorir e a ampliar de alguns pormenores fantásticos. A realidade não é objectivável. Os dados e os fenómenos só são passíveis de interpretação. O facto de abruptamente o príncipe ter começado a andar, a ter acontecido, seria hoje explicado “cientificamente” na base de mecanismos psicológicos.

Para quem tem fé, contudo, independentemente dos contributos e das explicações da ciência, determinados acontecimentos, pelas suas características extraordinárias e pelas alterações inesperadas na vida das pessoas, podem sempre ser vistos como milagres ou antes como sinais reveladores da intervenção divina.

Em síntese, para além do que realmente se terá passado (e “alguma coisa se passou, e muito séria”), Cárquere consubstancia no plano simbólico o arranque da nacionalidade, com os “primeiros passos” de D. Afonso Henriques.

Nota: Este apontamento segue de perto, por vezes quase literalmente, a comunicação Santa Maria de Cárquere, em Resende: A “cura milagrosa” do nosso primeiro rei e os “primeiros passos” da nossa História, apresentada pelo Dr. Joaquim Correia Duarte à Academia Portuguesa de História, em 9 de Abril de 2008, cujo texto (sem a extensa bibliografia) está disponível neste blogue.

por Marinho Borges Fonte: http://canastrodeletras.blogspot.pt/

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A Lenda da Gardunha

 ● 27/11/14 coment

A Lenda da Gardunha


A nossa lenda começa quando Idanha-a-Velha (1) era a mais florescente cidade de Egitânia,(2) a qual foi pátria do famoso rei dos Visigodos, Vamba.(3) Cobiçada pelos Árabes, várias vezes estes haviam tentado destruir a cidade. E é nesta época que entram em cena os protagonistas da nossa história. São eles: Ildefonso, viúvo, casado segunda vez com uma linda mulher chamada Alberta; Alberta, ambiciosa, péssima madrasta para a pequena Lília, filha de Ildefonso; e, Lília, uma pequenita órfã de mãe, contando apenas dez anos, cuja companhia favorita era o seu cão.(4)

Serra da Gardunha

A tarde não era das mais famosas. Nem sol brilhante, nem calor. Uma tarde vulgar num dia mais vulgar ainda.

No terraço da casa de Ildefonso, Alberta, rubra de cólera, gritava para Lília todo o seu desespero.

— És um empecilho! Não serves para nada e só consegues aborrecer-me!
Humilde, Lília desculpava-se:
— Não tenho culpa de que o meu cão a tivesse mordido!
Desesperada, Alberta tornou:
— Mas mordeu! Por isso o odeio!
— Ele só morde naqueles que lhe batem sem razão...
A mulher desesperou-se ainda mais.
— Achas então que não devo bater nesse rafeiro! Pois fica sabendo que esta noite hei-de mandar matar o teu maldito cão!

A pequena Lília agarrou-se aflitivamente ao pescoço do animal, pedindo entre lágrimas:
— Não! Não faça isso ao meu cãozinho! Ele gosta tanto de mim... até chora comigo!
Alberta teve uma gargalhada forçada. E desdenhosamente comentou:
— Pateta! Já se viu um cão chorar ou rir?
Lília, com o rosto banhado em pranto, sentiu-se forte para defender o seu amigo.
— Sim, senhora! Eu vi! Chorou no dia em que a minha mãe morreu! E olhe agora para os seus olhos... Está chorando comigo!

Interrompendo-a, Alberta gritou:
— Cala-te! Não digas mais disparates!
— Mas o meu cão está a chorar, veja!
— Cala-te, já te disse! Senão conto ao teu pai o que se passou: que ele me mordeu e que tu me faltaste ao respeito...

Lília continuava a chorar, suplicando:
— Mas não mate o meu cãozinho, não o mate!... Gosto tanto dele!...
— Hei-de matá-lo! Mordeu-me!
— E a senhora bateu-lhe! Bate-lhe sempre que o vê! O meu pai...
Alberta vociferou:
— Se contas ao teu pai a nossa conversa, mato-te também... como se mata um cão! Ouviste?
Lília então revoltou-se. Mas não gritou.

As lágrimas secaram-se-lhe nos olhos. Sentia-se ofegante e disse apenas, numa voz baixa onde ia todo o seu desprezo:
— Como a senhora é má! Como é má!
Alberta olhou-a uma vez mais com ódio e, num gesto imperativo, ordenou:
— Sai imediatamente da minha vista! E não me perguntes mais pelo teu cão!
Lília obedeceu. Afastou-se, sem pressa, daquela má mulher. O cão rosnou. A pequenita, porém, recomendou-lhe, baixo:
— Não faças barulho! Ela não te há-de matar... Vamos fugir os dois! Vou buscar o merendal...(5) Espera aqui por mim.

O cão acenou com a cauda, como se a tivesse compreendido. Lília voltou depressa. Trazia a merenda e um manto que colocou sobre os ombros. Lado a lado, os dois amigos atravessaram rapidamente a cidade. Lília olhava de vez em quando para trás, a verificar se teria ou não sido descoberta. Mas ninguém os seguia! Para onde iria esconder-se? A pequena olhou o céu, num pedido de protecção. De súbito, o seu olhar descobriu a serra que se elevava lá no fundo, cheia de rochedos e grutas.(6) Teve um sorriso de esperança. Acariciou a cabeça do cão e falou-lhe:

— Vamos! Já temos morada. Vamos subir a montanha!

O cão agitou a cauda, de contente. A sua dona e o ar livre eram tudo para ele!

A noite começava a cair, quando a pequena Lília chegou ao cimo. Agora já não podia voltar para trás. Só tinha um caminho: procurar abrigo seguro. E encontrou-o nas grutas, que mais pareciam fortalezas.

Lília sentou-se, aconchegou o manto, puxou o cão para si, comeram ambos do mesmo farnel, e ambos adormeceram lado a lado.
A noite veio espreitar esse quadro de inocência no alto da montanha. E ficou também ali, até que a aurora veio lembrar-lhe que era tempo de partir. Então a noite foi-se embora, sorrindo aos adormecidos...

No momento preciso em que a noite deu lugar ao dia, Lília sentiu que mão invisível lhe tocava num ombro. Levantou-se sobressaltada, mas o seu cão latiu de contente. A menina olhou em volta. Uma luz azulada cobria a montanha. Ela perguntou ao seu companheiro:

— Viste quem me acordou?

Então, uma voz bonita de mulher chegou aos seus ouvidos, enquanto sobre um rochedo uma senhora envolta num manto branco (7) lhe sorria:
— Lília! Tens de voltar lá a baixo...
A pequena surpreendeu-se. Nunca vira uma senhora tão linda, nem ouvira voz tão meiga. Perguntou, na sua inocência:
— Senhora! Quem sois?

Sorrindo sempre, a dama de branco respondeu, serena:
— Sou do Céu.(8) Nada temas!
Os olhitos de Lília abriram-se mais, numa ingénua curiosidade.
— Se sois do Céu... porque viestes à Terra?
— Para te falar e proteger.
Lília aproximou-se da senhora de branco. A sua vozita soou magoada:
— Sabeis então que ela queria matar o meu cãozinho?
Cariciosamente, a senhora tornou:
— Sei, sim. Mas maior perigo corre agora o teu pai e todo o povo de Egitânia.
Assustada, a menina perguntou:
— Ela quer matá-lo também?
A senhora pousou os seus dedos de luz nos cabelos doirados da menina.
— Não, Lília, não se trata agora da tua madrasta. Refiro-me aos infiéis que estão quase às portas da cidade. O combate vais começar. Dentro de algumas horas Egitânia será destruída pelos Mouros.(9)

O rosto da menina traduziu o seu alarme. Perguntou com ansiedade, na sua voz juvenil:
— E o meu paizinho morrerá?
A senhora volveu:
— Tu poderás salvá-lo.
— Como, senhora?
— Corre lá a baixo à cidade e tenta falar com teu pai. É preciso que ele acredite em ti. O povo terá de reunir tudo o que puder de comida e agasalhos para vir refugiar-se nesta montanha. Compreendes o que te digo? Terão de vir todos para aqui, se querem salvar-se!

A menina acenou com a cabeça em sinal afirmativo. A senhora de branco continuou:

— Repara bem neste local, Lília! Parece uma fortaleza. Aqui os Mouros não conseguirão vencê-los. Poderão destruir a cidade, mas não destruirão os corpos desta gente sã, nem sequer a fé nas suas almas fortes. Vai, pois, Lília, e avisa o teu pai.

A menina, num à-vontade de criança, perguntou ainda:
— Quereis que os traga todos para aqui já?
A senhora respondeu com firmeza:
— Não há tempo a perder! O alarme já se espalhou. Os Mouros preparam-se neste momento para atacar. Vai depressa! Eu te protegerei.
Aflita, Lília pediu:
— Então... tomai conta do meu cãozinho! Não quero que ele volte lá a baixo! Irei sozinha.
Serena, a senhora tornou:
— Lília! O teu cão já não merece preocupações. A esta hora, Alberta, a tua madrasta, chora de horror e julga que a invasão é um castigo do Céu. Porém, os outros não poderiam sofrer por ela! Jamais o céu a castigaria, castigando também inocentes. Vai, e traz essa gente para aqui!

A pequena Lília olhou agradecida para a senhora de branco.
— Vou já a correr!
Depois, com ar duvidoso:
— Posso então levar o meu cãozinho?
A senhora sorriu.
— Leva sem receio o teu cãozinho. Ele ajudar-te-á a encontrar o caminho mais seguro.
Sem mais dizer, a menina começou a correr pela montanha a baixo, acompanhada sempre pelo seu amigo. Quando chegou à cidade, só viu gente correndo como alucinada, de um lado para o outro, soltando lamentos!

A todos perguntava pelo pai. Só ao pai podia transmitir o recado da senhora do Céu. Quando o encontrou, ambos ficaram por um momento estáticos. Foi Ildefonso quem reagiu primeiro:
— Lília! Tu aqui?... Julgava-te em casa dormindo. Vai já ter com a tua madrasta e não saiam para a rua!

A menina olhou-o com firmeza:
— Pai! Preciso dizer-lhe uma coisa!
Ele enfadou-se:
— Estamos em guerra, compreendes? Não os ouves ao longe? São muitos, muitos... dez vezes mais que os nossos homens!...
Lília insistiu, serena:
— Mas a Senhora quer que eu lhe conte o que ela me disse!
— Qual senhora?
— A Senhora do monte, lá em cima...(10)
Ildefonso olhou a filha com perplexidade.
— A senhora do monte?... Mas... que ideia é essa? Estás doente? Tens febre?
— Não. Estou apenas cansada porque vim a correr. A Senhora disse que tinha de vir depressa avisar o pai.
Ildefonso pegou-lhe nos ombros:
— Mas quem é essa senhora?
— A que me apareceu lá em cima esta manhã.
O homem abanou a cabeça. Não entendia o que a filha tentava dizer-lhe.
— Ouve: não tenho tempo para pensar com calma. Tu estiveste lá em cima? Além, nos rochedos?
— Sim, meu pai.
— Porque foste sozinha?
Lília hesitou. Ildefonso gritou quase:
— Responde! Porque foste para lá sozinha?
Olhando o cão que se encostara às suas pernas, como a dar-lhe alento, a menina explicou:
— A minha madrasta queria matar o meu cão e eu fugi ontem com ele.
O pai gritou-lhe, surpreendido:
— Ontem? Mas... então não estavas a dormir quando eu cheguei?
— Tinha fugido com medo!
— Para onde?
— Para o cimo da montanha. Escondi-me nos rochedos. E foi ali que esta manhã a Senhora me falou...
Ildefonso olhou a filha e escutou a algazarra que se aproximava. Baixou-se para lhe falar, olhos com olhos. Não havia tempo a perder.
— Lília! Que te disse essa senhora?
— Que vinha do Céu e que eu devia correr até aqui, para dizer ao pai que fugissem todos...
Ildefonso interrompeu a filha:
— Que fugíssemos? Para eles destruírem tudo?... Creio que não escaparemos... Mas hão-de encontrar-nos pela frente!
Lília insistiu, firme:
— Mas a Senhora diz que ali, nos rochedos, é como se fosse uma fortaleza onde os homens maus não poderão chegar!
Ildefonso levantou-se de súbito. Levou uma das mãos à testa. No seu rosto passou uma expressão quase de triunfo:
— É isso mesmo! Começo a ver claro! Isto foi uma bênção do Céu! A Virgem Mãe de Deus vai ajudar-nos! (11)
Agora, parecia já indiferente à algazarra que se ouvia cada vez mais próxima. Voltou a baixar-se ao nível do rosto de Lília.
— Que mais te disse Ela, filha?
— Que o pai desse esta nova ao povo de Egitânia. Que arranjassem comida e agasalho e fossem todos para a fortaleza da serra!
Ildefonso ergueu-se. No olhar brilhava-lhe uma chama de fé. Murmurou:
— É isso! Louvado seja Deus!
Depois, beijando a filha:
— Meu anjo da guarda! Vai imediatamente a casa e diz à tua madrasta que vá aprontando as coisas, que daqui a pouco irei buscá-las! Vou reunir os meus homens e falar-lhes!

A nova espalhou-se rapidamente. Hinos de louvor subiam ao Céu enquanto o povo de Egitânia — hoje, Idanha-a-Velha — subia ao cimo da serra. E quando o invasor chegou, numerosíssimo, destruindo tudo à sua passagem, ficou pasmado com a ideia dos egitanenses. Tentaram subir também a montanha, mas não conseguiram desalojá-los de tão forte castelo natural.

Na impotência dessa vitória que já chamavam sua, os mouros bradavam, então, uns para os outros: «Gardunha»! «Gardunha»! (12)

E assim era, na verdade. O povo da Egitânia encontrara, pela mão de Deus e da inocência, o melhor refúgio na serra que o cercava. Daí se começou a chamar-lhe — serra da Gardunha. E lá no alto, o povo construiu uma ermida com a imagem duma Senhora envolta num manto branco — a Senhora da Gardunha (13) — num comovente gesto de acção de graças!

Fonte BiblioMARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 395-400 . Place of collectionIdanha-A-Velha, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO
* * * *
Notas e Comentários

(1) - Idanha-a-Velha - Freguesia do concelho e comarca de Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. Está situada na margem direita do rio Ponsul. Pode ser considerada, sem dúvida alguma, das mais antigas povoações de Portugal e possui ricos pergaminhos históricos, entre os quais ter sido berço natal do famoso rei dos Visigodos, VAMBA.

Na verdade, onde hoje se ergue Idanha-a-Velha situava-se antigamente, segundo investigações históricas, a florescente cidade de Egitânia, capital dos visigodos. Mas do passado pouco resta. A própria catedral de Egitânia, agora abandonada e em ruínas, acabou por ser transformada em cemitério.

Só a imaginação perdura. A imaginação que não esquece o altaneiro castelo mandado construir por D. Gualdim Pais, grão-mestre da Ordem dos Templários. A imaginação que se orgulha do foral dado por D. Afonso II, na Guarda, no mês de Abril de 1229, foral renovado por D. Manuel cerca de três séculos depois. A Imaginação que atribui a São Paulo a santificação da terra e que diz o famoso S- Pedro de Rates ter pregado em Idanha-a-Velha.

Já o arqueólogo Félix Alves Pereira escreveu na obra «Ruínas de Ruínas ou Destroços Igeditamos», publicado em 1917: «Idanha-a-Velha pertende ao número de povoações que no solo de Portugal foram outrora importantes, e hoje são perfeitos cadávares de pedra, que o tempo descarna.»

(2) - Egitânia - Está provado que se trata do nome antigo de Idanha-a-Velha, sede episcopal dos Visigodos e, tal como regista a «Enciclopédia Luso-Brasileira», «várias vezes convertida em montões de ruínas por invasores, restaurada por D.Sancho I de Portugal, que a erigiu também em cidadela dos Templários».

(3) - Rei Vamba - Um dos mais poderosos chefes Visigodos. Segundo a tradição, o rei Vamba nasceu na antiga Egitânia. Vamba perdeu o seu trono em favor de Ervígio, devida às manhas deste, que lhe deu a beber um líquido soporífero.  Vamba caiu assim num sono tão profundo, que o julgaram morto.
Como mandavam as práticas fúnebres de então, vestiram-no com um hábito de frade e cortaram~lhe o cabelo. Ora segundo as rigorosas leis dos Godos, o cabelo longo era um dos atributos régios.  E quando Vamba acordou do seu sonho estranho, só teve uma solução: abandonar o trono, cedendo-o ao jovem ambicioso Ervídio.

(4) - O Cão, companheiro da Criança -  Por ter sido talvez o primeiro animal domesticado pelo homem, pois nas cavernas já se encontram vestígios da sua presença - o cão desde sempre é considerado o seu amigo mais fiel.  No «Zend Avesta», um dos grandes monumentos históricos da Humanidade, exista a seguinte frase: «O Mundo subsiste pela inteligência do cão.»
Especialmente as crianças encontram no cão uma companhia exemplar. Há mesmo um ditado que diz: «Criança e cão fazem união.» Por isso não admira que a pequena Lília, tão maltratada pela madastra, buscasse refúgio e consolação junto do seu bom amigo, o cão...

(5) - O Merendal - Significa o mesmo que merenda, mais foi esse o termo que ouvi. E também estaria certo que a garota fosse buscar a sua merendeira, ou seja, o pequeno pão próprio para as merendas.

(6) . A Serra - Frei Francisco de Santiago descreveu assim a Serra da Gardunha: «agregado de jardins pelo vistoso das suas árvores e delicioso das suas fontes, e regatos, adornado de várias flores naturais e de muitas ervas cheirosas».

(7) - Uma Senhora de Branco - Ouvindo contar esta história, lembrei-me muitas vezes do aparecimento da Virgem Maria aos três pastorinho da Cova da Iria, em Fátima. Repare.se na analogia das duas aparições: «Uma Senhora toda de branco»...

(8) - Eu sou do Céu - As palavras da Senhora de Branco, tal  como vêm correndo de geração em geração, mais confirmam a semelhança circunstancial entre os casos de Egitânia e de Fátima, guardadas as devidas proporções. «Eu sou do Céu» é bem uma expressão divina.

(9) - As lutas constantes - Como já referi, a antiga Egitânia era alvo de muitas e diversas ambições. Na época em que a nossa história decorre, os Mouros pretendiam apoderar-se da florescente povoação.

(10) - A Senhora do Monte - Aqui temos mais um designativo de lugar a corroborar o comentário que já fiz neste mesmo volume em circunstâncias análogas. Neste caso específico, ouvi tratar por Senhora do monte, Senhora do alto, Senhora da serra e Senhora da montanha...

(11) - Bênção - A ideia da bênção divina como medidade defesa e protecção é já muito antiga.  Ainda hoje, frequentemente, os sacerdotes dão a sua bênção ao gado, aos campos, às oficinas, aos barcos e às casas. Antigamente dizia-se bendição, que depois caiu em desuso para dar lugar à forma mais simples: bênção.

(12) - Gardunha! Gardunha! - Frei Francisco de Santiago descreveu deste modo o prodigioso acontecimento, na sua «Crónica da Província da Soledade»: «...porque no tempo que a famosa cidade de Egitânia, hoje Idanha-a-Velha, uma das mais nobres e poderosas e ainda pátria feliz do santo Rei Vamba...foi destruída e devastada pelos Mouros...os seus moradores e dos seus contornos se acolheram a esta serra como castelo, e presídio forte, donde se podiam defender, e por esta causa lhe ficou o nome de Gardunha, palavra arábica que significa refúgio ou guarda da Idanha; mas entendemos que o sítio, onde se vieram refugiar, e tomar assento os Egitanenses ou Idanheses, foi o que ainda hoje conserva o nome de Gardunha, servindo-se o mais da serra de muro forte contra os Mouros».

(13) - A Senhora da Gardunha - Também o mesmo autor refere e afirma a presença da imagem de Nossa Senhora que ali aparecera à pobre menina e ao cão: «Para a parte ocidental desta serra, no mais alto está um sítio chamado a Gardunha, onde se vê uma ermida com a imagem intitulada à Senhora da Gardunha, tomando o título do sítio.»
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Contos e Lendas na Serra de Sintra

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Tinha na forja várias lendas sobre Sintra, que Lord Byron descreveu como «o lugar mais bonito do mundo». Na busca por uma imagem, que normalmente uso para as enquadrar, eis que encontro um soberbo programa na RTP, do Insígne Professor José Hermano Saraiva, a explicar-nos, como só ele sabia fazê-lo, algumas lendas relacionadas com Sintra. As imagens de Sintra com os seus Palácios, Castelos e Conventos tão ricos de história, e dos belos povoados pertencentes ao seu Concelho, são outro motivo para que se não percam estes 25 minutos de puro deleite.


A Alma e a Gente - VIII #28 - Contos e Lendas na Serra de Sintra - 17 Jul 2010



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Lenda de Santa Comba Dão

 ● 10/11/14 coment
No claustro do convento, em contraste profundo, escutava-se o próprio silêncio, no qual se adivinhavam as orações mentais das pobres freiras atormentadas pelo medo. E havia sombra. Sombra nas celas, nos claustros, na capela, no coro.

Santa Comba Dão - rio Dão

Lá fora havia gritos e imprecações, insultos e blasfémias que subiam no ar indiferente ao que os seus átomos transportavam. Havia também sol, dando uma cor brilhante à natureza. Também havia sangue de feridos e mortos na grande batalha que se travava desde Coimbra.(1)

No claustro do convento, em contraste profundo, escutava-se o próprio silêncio, no qual se adivinhavam as orações mentais das pobres freiras atormentadas pelo medo. E havia sombra. Sombra nas celas, nos claustros, na capela, no coro. Sombra nos seus hábitos, sombra nos seus olhos entristecidos por tantos desmandos Só nos seus corações havia luz! Luz trazida pela fé em Deus, coada pela virtude daquela meia centena de virgens consagradas ao Senhor.

Elas sabiam. Sabiam que o rei Almançor (2) havia vencido também em Coimbra. Sabiam que a batalha continuava pelas margens do rio Om. Sabiam que o seu convento seria motivo de cobiça a esses homens, senhores de uma vitória retumbante e que vinham saqueando e destruindo tudo por onde passavam. Elas sabiam! Por isso oravam, sem se atreverem a dizer alto o que no íntimo ofereciam em troca da sua pureza.

De súbito, ouviram-se pancadas na porta. Os seus corações quase pararam. Olharam todas para a sua madre abadessa — a madre Comba, esperando ver num gesto seu qual a atitude que haviam de tomar. Mas, serena no rosto, embora tristíssima na alma, a madre Comba (3)levantou-se e fez-lhes sinal de que ficassem. Foi até ao postigo e perguntou, como se não se tivesse apercebido da turba que esperava lá fora:

— Quem bate à porta da Casa de Deus?

Um jovem alto, forte, moreno, de olhar decidido, respondeu logo:
— Sou Aben Abdallah e venho em nome do rei Almançor para que me abram essas portas. Eu e os meus homens ficaremos hoje aqui.
Serena, a madre Comba replicou:
— Vós e os vossos homens na Casa de Deus? Tenho à minha guarda muitas jovens esposas de Cristo. Não as exporei a tamanho perigo.
O chefe guerreiro impacientou-se:
— Abre essa porta, pois não gosto de falar sem ver o rosto daquela a quem falo!
— E se eu a não abrir?
— Abri-la-ão os meus homens!
— E se a abrir prometeis falar comigo e não entrar aqui ninguém seu que a nossa conversa termine?
— Sim, prometo!
Com a mão que fez por se mostrar firme, a madre Comba abriu a porta. Então o homem, com a ponta da adaga, pôs-lhe o rosto a descoberto, afastando-lhe o véu. Ela amedrontou-se.
— Que fazeis?
— Quero ver o teu rosto. Onde está a abadessa?
Humildemente, a madre Comba respondeu:
— Está aqui. Sou eu própria.
O homem mostrou-se surpreendido. Depois soltou uma gargalhada.
— Tu... a abadessa? Tão nova? Tão bonita? Compreendo agora a dádiva do meu rei!
A freira sentiu como que uma dor forte no peito.
— Eu é que não compreendo o que estais dizendo!
Ele riu de novo, olhando os olhos que procuravam desviar-se.
— Tão nova… tão bonita... Sabes que tu é que foste designada para mim? Cada uma das tuas freiras será dada a um dos meus guerreiros. Esta é a ordem de Almançor!
A madre tornou-se subitamente pálida. Aos seus olhos afloraram lágrimas de desesperada angústia.
— Senhor! Matai-nos então a todas!
Aben Abdallah mostrou-se sorridente.
— Que ideia! Só destruímos o que não pode servir-nos.
Tentando serenar-se, a madre Comba respondeu:
— Nós não poderemos servir-vos. Pertencemos a Deus, a quem nos consagrámos.
Ele impacientou-se.
— Basta de conversa! Os meus homens vão entrar por ordem de comportamento nas batalhas e irão escolhendo entre as tuas freiras a que mais lhes agradar. Eu não preciso de olhar mais: tenho a minha escolha já feita!

Madre Comba sentiu que a aflição lhe tomava a garganta, impedindo-a de falar. Atormentava-a um medo horrível. Um medo horrível desse homem e dos outros que esperavam, impacientes, a ordem do seu chefe para entrarem e profanarem um lugar santificado!
— Que fazer? Que fazer? — perguntava a si própria, no íntimo do seu coração.
A turba começou a impacientar-se. Aben Abdallah observou:
— Vês como os homens começam a achar que estamos conversando em demasia? Bem. Quero que eles entrem com ordem, um a um. Mas tu acabarás por obrigá-los a entrar de tropel, destruindo tudo na sua passagem!
Ela hesitou. Depois disse:
— Seja! Organizai os vossos homens e dizei-me qual é o que entra primeiro.
Aben Abdallah indicou um deles.
—Tu! Entra e escolhe uma das mulheres que mais te agrade. Uma das que estão lá dentro, é claro...
O homem riu.
— Saberei escolher, Aben Abdallah!
Entrou com a madre, que fechou a porta. As pernas dela tremiam-lhe como bambu exposto ao tufão. Quase cambaleava. Encostou-se à parede. O homem estacou também.
— Onde raio estão elas? Está tudo tão silencioso... Não me agrada isto.
Madre Comba refez-se um pouco:
— Vinde comigo. Devem estar lá em baixo, na capela. O vosso castigo será enorme, por nos obrigardes a tanto!
— Castigo?
— Sim! Ides profanar a Casa de Deus e o castigo é certo.

O homem seguiu a madre sem mais palavra. Ao chegarem à capela, as freiras ergueram-se sem ruído. O homem ficou perplexo. Tanta mulher! E quase todas novas e bonitas! Não sabia qual escolher.
A madre Comba falou então:
— Minhas filhas! Chegou a grande hora de mostrarmos a nossa lealdade ao Esposo que escolhemos. Este homem que aqui vedes vai escolher uma de vós. Sabeis, pois, qual o destino que deveis seguir.
O homem esperou uma reacção. Nada chegou. Oravam em silêncio as freirinhas bentas do convento das margens do rio Om.(4) De súbito, o guerreiro decidiu-se.
— Quero esta!
E tomou-a por um braço. Então, a madre aproximou-se e beijou-a na testa.

Nesse mesmo instante, a freirinha sacou um punhal das suas vestes e cravou-o no peito. E todas as outras fizeram o mesmo! Uma a uma, elas iam caindo aos pés do homem, que correu para fora apavorado, gritando pelo seu chefe. Logo a madre Comba correu a fechar as portas. Desesperados, os homens forçaram a entrada. Mas quando chegaram à capela, jaziam por terra as freiras bentas do convento onde a madre Comba era abadessa. E, junto das suas bem-amadas companheiras, Ab Abdallah encontrou também o corpo inanimado da jovem abadessa que ele pensara roubar ao Todo-Poderoso!

Ao saber o que se passara, Almançor entrou em fúria. Gritou:
— Porque as não mataram logo? Essas mulheres nem sabem ser gente!

Não! Não era gente vulgar, a madre Comba e as freiras do convento das margens do Om! Tão diferente ela era, que os seus milagres deram-lhe fama de santa. E assim, para se distinguir da Santa Comba de Coimbra e da Santa Comba do Alentejo, começaram a chamar-lhe Santa Comba do Rio Om. Depois Santa Comba d’Om, que deu, mais tarde, Santa Comba Dão (5). E a vila que veio a formar-se no local onde se dera o martírio de Santa Comba tomou o seu nome, para que os homens não esquecessem a jovem e linda abadessa que preferira morrer a atraiçoar a fé jurada ao seu Divino Esposo.

* * * *
Notas e comentários;
(1) - Conquista de Coimbra - A famosa cidade do Mondego sofreu a má sorte da guerra por muitas e várias vezes. Começou por estar na posse dor Romanos. Foi invadida depois pelos Alanos, pelos Suevos e pelos Visigodos. Mais tarde conquistada por Tarique e Muça, os grandes chefes muçulmanos. Manteve-se sob o domínio árabe durante mais de um século. Mas no ano 878, D.Afonso III, Rei de Leão, tomou-a aos Mouros. Entretanto, a cidade não deixava de ser cobiçada. E precisamente na altura em que se passa a nossa história lendária - o ano 987 da era cristã - Coimbra era assaltada pelo poderoso exército do rei Almançor, que a conseguiria conquistar, destruindo-a quase totalmente, para depois a reconstruir.

(2) - Almançor - Este extraordinário rei mouro que em vida se chamou Mohamed Aben Abdallah Ben Abi Ahmer Almançor foi, no dizer do conceituado historiador espanhol Lafuente, «o mais popular caudilho da Península muçulmana...um politico profundo, um ministro sábio, um guerreiro insigne...enfim, o Alexandre, o Anibal, o César dos Muçulmanos, incerto como um cometa errante, terrível como um trovão, rápido como um raio, nas suas campanhas».

E a verdade é que a carreira de Almançor, foi excepcional. Nasceu no ano de 939 (o mesmo ano em que se travou a celebrada batalha de Simancas). Ainda adolescente, formou-se rapidamente em Teologia e Direito, na cidade de Córdoba, demonstrando desde logo invulgar poder de raciocínio. Graças à sua simpatia pessoal, alcançou a protecção da sultana Aurora, que o elegeu seu secretário e mordomo e acabou por transformá-lo no autentico califa, depois da morte de Alhaquém II.

Entre os seus feitos mais notáveis contam-se a conquista de Saragoça em 982, a invasão de Leão, dois anos depois, a invasão e destruição de Barcelona, no ano seguinte, e a conquista e destruição de Coimbra no ano de 987, a que se refere a nossa história lendária. Mas a mais extraordinária das expedições de Almançor seria ainda mais tarde, em 997, numa prodigiosa jornada guerreira, absolutamente trinfal, até à Galiza, em que arrasou tudo à sua frente.

Morrei em 1002, com sessenta e três anos de idade, na batalha de Calatanhazor e, tal como acontecera com «El Cid» , também a lenda nimbou de sobrenatural a morte de Almançor.

(3) - Madre Comba - Parece que a este respeito não há quaisquer dúvidas. Madre Comba era abadessa dum convento de freiras bentas, na época em que Almançor atacou Coimbra. E o convento ficava situado onde se ergue actualmente a bonita e progressiva vila de Santa Comba Dão... Há apenas que rectificar uma questão de datas. Alguns cronistas apontam a data de 903 para o episódio acontecido com a Madre Comba. Outros situam-no no ano de 982. Ora eu julgo que somente se poderá e deverá ter passado no próprio ano da conquista de Coimbra por Almamçor, ou seja no ano de 987.

(4) - Rio OM - No volume II dos «Topónimos e Gentílicos» do Dr. Xavier Fernandes pode ler-se esta passagem: «Dão, como se sdabe é afluente do Mondego. Parece que o seu verdadeiro nome era simplesmente OM, mas começou a dizer-se d´OM, depois rio DOM e por fim rio DÃO»

(5) Santa Comba Dão - Logicamente, como afirmam os entendidos, como homenagem ao martírio da Madre Comba, que bem mereceu ser santificada, desde logo, na opinião do povo, passou a chamar-se inicialmente à terra onde existia o mosteiro destruído pelos infiéis a terra de Santa Comba do Dão, para a diferenciar de outros mártires de nomes semelhantes: Santa Comba do Alentejo, Santa Comba de Coimbra e Santa Comba das Lamas de Orelhão. Porém, com o passar do tempo, o nome da terra foi-se simplificando para Santa Comba Dão, tal como se diz hoje em dia.

Há a registar que a Vila recebeu o seu primeiro foral das mãos do Conde D.Henrique em 1102, foral que foi renovado por D.Manuel I, quando corria o ano de 1514. No século XV, Santa Comba Dão recebeu o título de condado por mercê concedida a D. João Galvão, bispo de Coimbra; e no dia 19 de Setembro de 1810 foi teatro duma sangrenta batalha entre as tropas invasoras de Massena e os soldados portugueses.

Fonte BiblioMARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 287-290

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Lenda do Cegovim

 ● 01/11/14 coment
Ora aconteceu assim mesmo.
Tal e qual como reza a História. Tal e qual como conta o povo.

Nos seus primeiros tempos de casada com El-Rei D. Dinis, a jovem e formosa Rainha Dona Isabel — à qual chamaram, mais tarde, e com toda a razão, «Rainha entre as Santas e Santa entre as rainhas» — foi viver com a Corte para Leiria.


E ali, nesse cenário de sonho o tempo ia passando entre folguedos e jogos poéticos...
Dona Isabel era então ainda muito nova, mas já revelava o seu extraordinário amor pelos pobres e pelos humildes, levando àqueles que sofriam a consolação duma palavra ou dum gesto. Em vez de ficar reclinada, como o rei, aspirando voluptuosamente o perfume das flores — ela empregava o tempo visitando os que mais necessitavam do seu auxílio. E foi no caminho duma dessas visitas de misericórdia que certa manhã encontrou nas voltas dum atalho um pobre mendigo leproso, sujo e repelente.
Mal a viu, o homem afastou-se instintivamente. Mas pediu, com voz trémula:
— Senhora, atirai-me uma esmola... porque eu morro de fome e de cansaço...
Ia só, a Rainha. Contudo, nem por um instante sequer hesitou em parar. E parou, e perguntou, com infinita ternura:
— Donde vindes, pobre homem? Pareceis-me bem doente... Aproximai-vos...
Todavia ele não se aproximou. Antes, pelo contrário, recuou. Mais e mais.
— Não, senhora, não... Isso não!... Não sei quem sois… mas não me toqueis!... Bem vedes... A minha doença é praga maldita que não perdoa a ninguém.
Dona Isabel suspirou. A miséria humana atormentava-a tanto, tanto... Ah, se ela pudesse!...
Fez um gesto tímido.
— Parai, pobre velho... Fugis, para quê?
A voz dele chegou-lhe como que num murmúrio de confissão:
— Para não vos pegar o meu mal, senhora... Já vi que sois boa!
E o mendigo, fazendo alarde das suas últimas forças, procurava afastar-se o mais rapidamente possível... Porém as pernas fraquejaram e ele caiu de borco no chão poeirento. Sem hesitar, Dona Isabel correu para junto do desgraçado velho.
— Estais ferido?
Por momentos, não respondeu. Depois, a resposta veio, ofegante e excitada:
— Oh, senhora, por quem sois, rogo que vos afasteis!... Sinto-me morrer aos poucos... mas fugi, fugi de mim!... Eu sou maldito!
Dona Isabel sorriu. Um sorriso feito de graça e de suavidade.
— Não sejais tonto, pobre homem... Vinde comigo!
E, perante o olhar estupefacto do velho mendigo, a Rainha ajuntou, numa voz meiga mas sem réplica:
— Amparai-vos ao meu braço!
Apenas um gemido saiu dos lábios trémulos do velhusco.
— Senhora...
Mas já ela, segurando-o e amparando-o, lhe dizia, sempre a sorrir:
— Podeis fazer força... O meu braço também é forte...

E assim andaram algum tempo. Estranho par, na verdade! Pelo atalho cheio de pedras e de poeira, um velho mendigo leproso arrastando-se encostado ao braço duma rainha!
Enquanto andavam, Dona Isabel sentia que a vida dele se estava a extinguir, pouco a pouco... Sim, o mal do pobre homem, além da lepra que o devorava implacavelmente, devia ser fome... Uma fome terrível, decerto... E era preciso salvá-lo!
De súbito, parou. Olhou em redor. Sentiu-se aturdida, desorientada. E sem que o velho a pudesse escutar, rezou mentalmente:
— Oh, meu Deus!... Ajudai-me, meu Deus! Não vejo o que possa dar a este pobre homem... A não ser... A não ser estas pequenas amoras que estão aqui perto de mim... Mas as amoras não matam a fome...
Fez uma pausa. Os seus olhos prenderam-se mais às amoras. Teve um sopro íntimo de inspiração.
— Quem sabe? O poder de Deus é grande, é infinito!... Quem sabe se Ele não pôs as amoras no meu caminho… apenas para me experimentar?
E sem mais hesitação colheu uma mão-cheia de amoras e deu-as ao velho mendigo.
— Tomai... Tomai nas vossas mãos... Comei estas amoras!
Espantado, indeciso, arfando de cansaço e de emoção por tudo o que lhe acontecia tão inesperadamente, ele ainda perguntou:
— Achais que eu possa comer… estas amoras... senhora?... No meu estado?...
Prontamente, a Rainha respondeu:
— Podeis, sim!... Podeis e deveis... Confiai na vontade de Deus!
Embora sem grande entusiasmo, o mendigo foi comendo devagar as amoras que a Rainha lhe oferecera... E à medida que as comia, decerto por efeito sobrenatural, ganhava novas energias, sentia-se mais forte.
Os olhos do velho desenrugaram-se e inundaram-se de gratidão.
— Senhora! Senhora! Isto é um milagre!... Quem sois vós, senhora?
E endireitava-se, já sem necessidade de se apoiar ao braço da Rainha. Desaparecera o cansaço por completo. Restava apenas a emoção.
— Senhora, quem sois vós? — insistiu ele.
E ela respondeu simplesmente:
— Sou uma mulher que tem fé.
Depois, olhando-o e sorrindo-lhe, acentuou:
— Se tiverdes fé, também, as vossas feridas hão-de sarar!
A medo, o homem olhou as chagas da lepra e voltou a fitar a extraordinária mulher que encontrara em seu caminho, nessa manhã. Ela agora parecia ainda mais jovem e formosa. E mais excitada.
— Olhai... Ou eu me engano muito... ou as vossas feridas estão a desaparecer... Vede!
E perante o olhar cada vez mais atónito do mendigo, à maneira que as mãos de Dona Isabel iam passando suavemente sobre as feridas, estas desapareciam, fechando-se incompreensivelmente.
Sem saber que pensar, sem saber que fazer, o velhusco voltou a gaguejar.
— Senhora... As vossas mãos… fazem milagres!
Dona Isabel envolveu a resposta num dos seus incomparáveis sorrisos.
— Não são as minhas mãos que fazem milagres, pobre velho... São as amoras que Deus espalhou por estes caminhos!
Segundo a antiga história que o povo conta, tal como muitos outros já tinham ficado seus fiéis vassalos, também o mendigo, curado e maravilhado, se tornou um fervoroso servo daquela que o salvara e que ele veio a descobrir, com pasmo autêntico, ser a sua própria Rainha!
A partir de então, o pobre homem desejava somente poder pagar um dia, de qualquer modo, a sua enorme dívida de gratidão.
E esse dia surgiu. 
Andava ele, já altas horas, a terminar um carregamento de lenha, quando viu passar um vulto embuçado, que lhe pareceu de alguém bastante conhecido...
Seguiu-o, discretamente, aproveitando os recantos do campo — que para ele não tinha segredos — e acabou por descobrir que se tratava de El-Rei D. Dinis, numa das suas aventuras de amor.
O homem não perdeu mais tempo. Com a maior rapidez que lhe foi possível, correu ao encontro da Rainha, então instalada em Monte Real, a pouca distância dali. E, conseguindo ser levado imediatamente à sua presença, confessou sem delongas nem hesitações:
— Senhora, minha Rainha, perdoai-me... mas sei que El-Rei vosso esposo vos atraiçoa numa aldeia vizinha!
Dona Isabel fingiu não se perturbar.
— Que dizeis, meu bom amigo? Estais certo disso?
E ele afirmou, olhando-a bem de frente:
— Absolutamente certo! Vi-o, com os meus próprios olhos... Ia embuçado... Eu segui-o até à pequena aldeia para onde El-Rei se dirigia... Mas, ficai sabendo, Senhora, que vosso esposo sai muitas vezes assim, às escuras... Mal distingue o caminho, quando volta!
Dona Isabel pareceu reflectir, durante poucos momentos. Depois, resoluta, inclinou-se para o velho homem.
— Pois bem... Escutai… esta noite, ireis vós e alguns homens mais que escolherdes iluminar o caminho, quando El-Rei voltar... Sou eu que vos ordeno, entendeis?
— As vossas ordens serão cumpridas, Senhora minha Rainha!
Mas antes que ele se afastasse, Dona Isabel ainda ajuntou:
— Quando tudo estiver pronto, avisai-me... Eu também quero estar junto de vós.
E, na verdade, quando El-Rei, nessa madrugada escura, voltava da sua habitual aventura de amor, encontrou-se de súbito diante dum caminho estranhamente iluminado.
O seu primeiro gesto foi de furor.
— Que fazeis aqui, sandeus? Para que servem estes archotes?
Mas logo se aquietou, varado de surpresa. Vindo do meio dos homens dos archotes, avançou para ele a própria Rainha, que lhe respondeu:
— Estas luzes servem para vos iluminar o caminho, Senhor meu Rei... Vindes cego certamente pelo negrume da noite...
D. Dinis compreendeu. Baixou a cabeça. Quando a ergueu de novo, sorria também.
— Tendes razão, Senhora... Cego vim... E por isso vos agradeço terdes tão bela lembrança... Voltemos a Monte Real!
Cortejo singular, esse, a estender-se pelo caminho. À frente El-Rei D. Dinis e a Rainha Dona Isabel. Ambos calados. Ambos pensativos. Ambos iluminados pelos archotes que os homens erguiam nas suas mãos rudes.
De qualquer modo, fosse como fosse, a notícia propagou-se e no dia seguinte não se falava doutra coisa. De tal modo, que D. Dinis resolveu procurar a Rainha nos seus aposentos.
— Senhora... Fala-se demais no caso de ontem à noite...
— E de quem é a culpa, real Senhor?
Ele baixou os olhos.
— Bem sei que é minha... E por ser assim, venho trazer-vos uma novidade que decerto vos agradará...
A Rainha tentou adivinhar-lhe o segredo, pela expressão do rosto, mas não o conseguiu.
— Dizei então...
El-Rei aprumou-se e sentenciou:
— Daqui em diante, vou chamar àquele caminho… o caminho de Cegovim.
— Muito bem, real Senhor.
— Foste vós que me destes a inspiração, Isabel!... De facto, cego vim... até encontrar os vossos archotes... Vós o dissestes... E eu não esqueci.
Foi a vez dela sorrir brandamente, olhando-o com insistência.
— Prouvera a Deus que não mais vos esquecêsseis!
Ele segurou-lhe as mãos, beijando-as com ternura.
— Sim, eu andava cego... Perdoai-me!
— Estais perdoado...
E convidando-o a sentar-se junto dela, numa banqueta de seda, Dona Isabel segredou-lhe:
— Não vos esqueceis, Dinis... Aquele é o caminho de Cegovim... E lá para trás fica a aldeia do Amor!...
Riram ambos. As pazes estavam feitas, mais uma vez. Feliz, tranquilo, jovial, El-Rei acrescentou, rindo ainda:
— Isso mesmo: o caminho de Cegovim... e a aldeia do Amor... Sois a mais inteligente das mulheres… e das esposas!
Não consta que, pelo menos nos tempos mais chegados e naquele mesmo local, D. Dinis voltasse a andar pelos caminhos, de noite às ocultas da Rainha...
Mas os nomes desta história saborosa, que pertence às heranças da alma popular, continuaram e continuarão pelos tempos fora!
Ali, a uns dez quilómetros de Leiria, ainda hoje existe a pequena aldeia de Amor... E lá está a ligá-la a Monte Real o caminho de Cegovim...
E, finalmente, quanto às amoras: em certas regiões do País persiste o costume de julgar que Deus as espalhou para matar a fome e a sede e para curar as doenças… E ainda hoje corre de boca em boca uma quadra de genuíno sabor popular, que se diz ter sido feita pelo próprio velho mendigo da Rainha Santa.
As amoras que comi
Tinham um estranho sabor
Fosse delas ou de ti,
Nasceu em mim o amor...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal - Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 177-182
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A Lenda dos Távoras

 ● 19/08/14 coment

A tradição diz que os irmãos D. Tedo e D. Rausendo, os protagonistas desta lenda, que se terá passado em 1037, eram descendentes de Ramiro II de Leão. Os corajosos irmãos já há muito tempo tentavam tomar o castelo de Paredes da Beira que estava na posse do emir mouro de Lamego, sem qualquer sucesso. Mas um dia, esgotados todos os outros recursos, D. Tedo e D. Rausendo decidiram usar a astúcia para conseguirem apoderar-se da fortaleza.

Numa manhã do dia de S. João em que os mouros saíam habitualmente do castelo para se banharem nas águas do Távora, os dois irmãos e o seu exército disfarçados de mouros prepararam uma emboscada e entraram no castelo, matando a maior parte mouros que lá tinham ficado. Avisados por alguns mouros que tinham conseguido fugir do assalto, os mouros que festejavam no rio prepararam-se para voltar ao castelo quando foram atacados no rio por D. Tedo e os seus guerreiros que os dizimaram a todos.

O vale do rio onde se travou a sangrenta luta ficou a ser chamado por Vale D'Amil em lembrança dos mouros que tinham sido mortos aos mil. A lenda diz que os dois irmãos tomaram a partir da batalha o apelido de Távora, em memória do rio onde se tinha desenrolado a vitória, e adoptaram nas suas armas um golfinho sobre as ondas simbolizando D. Tedo que com o seu cavalo tinha vencido os Mouros nas águas do rio.

A Casa de Távora foi uma das mais ilustres Casas nobiliárquicas portuguesas. 
O apelido Távora, utilizado pelos membros desta família, deriva do Rio Távora - Beira Alta -,um afluente do Rio Douro, ou de uma vila ribeirinha com o mesmo nome. Uma versão estudada e bastante defendida por estudiosos, prende-se com a expansão da família Távora, a partir da vila de Trancoso, na Beira Alta, e posterior fundação da aldeia de Souro Pires, em Pinhel, onde ainda hoje existe um belo solar senhorial, construído no final do século XV, e que representa o mais importante exemplar de um solar senhorial em Portugal.

A família dos Távoras tem origens antiquíssimas, que alguns estudos genealógicos fazem remontar a um dos filhos de Ramiro II, Rei de Leão. O primeiro Senhor de Távora é Rozendo Hermingues, um nobre hispânico que viveu algures nos finais do século XI, princípios do século XII. O senhorio do morgado de Távora permanece na linha varonil desta casa. O hexaneto de Rozendo Hermingues é Lourenço Pires de Távora (c.1350-?), 8º Senhor de Távora, cavaleiro do Reino de Portugal e Senhor do Minhocal e do Couto de S. Pedro das Águias por mercê do Rei D. Pedro I.

Diz-se também, embora não haja provas documentais, que foi esta nobre família transmontana a fundadora do Mosteiro de S. Pedro das Águias. O filho primogénito de Lourenço Pires de Távora é Álvaro Pires de Távora (c.1370-?), 1º Senhor do Mogadouro por mercê do Rei D. Fernando I.
http://esoterismo-kiber.blogs.sapo.pt/



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Lendas históricas: Linda-a-Velha

 ● 26/05/14 coment
Numa casa acastelada, situada de nos arredores de Lisboa onde nascia uma pequena povoação ainda sem nome, vivia uma recatada e esbelta jovem que cavaleiros e jograis cortejavam. A todos, com discreta delicadeza, rejeitava. Até que – há sempre um dia – apareceu um moço fidalgo, amável e bem parecido. Olharam-se e logo se amaram. Falaram os olhos e entenderam-se – a expressiva linguagem dos olhos! Só depois de à noite, o jovem lhe ter cantado madrigais, chegaram à fala. Confessaram mutuamente o súbito amor que brotara em ambos.

Aconteceu que o enlevo foi fugaz. É que entretanto, a rogo do papa, o rei tinha anuído a participar numa cruzada à Terra Santa, para libertar a Palestina das garras dos infiéis. Os fidalgos foram convocados e o jovem amador lá partiu com o coração destroçado, mas animado pelas juras de inquebrantável amor. Da varanda da torre de sua casa, a jovem, entre lágrimas de saudade, viu a armada descer o Tejo e, de seguida, foi à capela rezar pelo êxito do seu bem amado.




Mas a nau em que este seguia foi surpreendida por uma tempestade à entrada do estreito de Gibraltar (então chamado Colunas de Hércules). Naufragou e a tripulação pereceu. Ninguém teve coragem, quando chegou a notícia, de lhe contar o nefasto acontecimento. Mas ela, com o passar do tempo, adivinhou-o. O amor, porém não morreu e alimentou a sua alma com tanto vigor que até conservava a sua juventude facial, inexplicavelmente. O corpo perdia o viço, os cabelos embranqueciam, mas o rosto permanecia sem sinais de velhice. O seu aspecto era o de uma linda velha.

Depois da partida do seu amado, a jovem castelã adquirira o hábito de se demorar à tarde na varanda da torre, contemplando o Tejo, na nostálgica expectativa de ver regressar o querido fidalgo. Com o avançar dos anos, já não era a esperança que a movia — era o hábito e a saudade. E as pessoas que passavam olhavam-na e comentavam, com admiração: como é linda a velha!

E assim aquele casarão onde residia passou a ser conhecido pelo paço da linda velha, que veio a dar o nome à povoação.

Fonte Biblio: Jorge Miranda, Viagem pelas Lendas do Concelho de Oeiras Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras, 1998

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Lendas Históricas - O Milagre da Nazaré

 ● 08/05/14 coment
O velho rei ergue a cabeça e olha. Olha e pensa. Pensa e revolta-se. Não se conforma com estar ali, quedo e aborrecido, enquanto seu filho Sancho anda correndo aventuras e perigos no Alentejo e no Algarve. E também enquanto o seu fiel D. Fuas Roupinho se bate, decerto como o valente que sempre é, em Porto de Mós, defrontando um inimigo muito superior em número e em forças...

Não, não está certo! D. Afonso Henriques, o já velho monarca que lançara as raízes do novo reino de Portugal, não pode esconder a sua impaciência.



Estamos no ano de 1180. Mais ou menos a meio do ano. Ficara combinado que el-rei não saísse de Coimbra sem que chegassem notícias de Porto de Mós, ou algum mensageiro dos campos do Alentejo e do Algarve, por onde D. Sancho passeava a sua ânsia de conquista. Mas para D. Afonso Henriques essa espera é longa demais. Para entreter a sua impaciência, percorre a largos passos as câmaras da alcáçova de Coimbra, que já caíra em seu poder. Assoma a uma janela e exclama:

— Porém, que posso eu fazer... senão esperar? Que Deus se amerceie do meu bom Fuas Roupinho e que ele volte depressa à minha presença! O rei de Portugal retoma o seu passeio. Agitado e inquieto. Não é homem para estar parado. Não é homem para aguardar serenamente os acontecimentos.

De súbito, um clamor inesperado corre pelas ruas, espalha-se pela cidade e acaba invadindo o próprio paço. Os sentidos do velho monarca ficam alerta. Será um novo ataque dos mouros?
A resposta não tarda a chegar, com o clamor alegre do povo. Clamor que sobe pela Couraça de Coimbra e que se precipita irresistivelmente ao encontro do velho rei. E com o clamor vem D. Fuas Roupinho, alcaide de Porto de Mós, trazendo atrás de si um rebanho de mouros, prisioneiros e taciturnos.

— Bravo D. Fuas... Cheguei a recear por vós.
As palavras de el-rei são sinceras, e nelas se mistura a admiração e a amizade.
D. Fuas ajoelha respeitosamente aos pés do rei. Depois ergue-se e diz:
— Senhor, a mihha carne pode ser já velha, mas a moirama ainda não arranjou lanças capazes de me matar...
D. Afonso Henriques sorri.
— Sois sempre o mesmo, D. Fuas! Nem os anos nem as canseiras conseguem quebrantar vossa alma de lutador.
D. Fuas sorri também, ao responder:
— Aprendi convosco, Senhor! Com tal mestre, pena seria que eu saísse mau discípulo...
Foi a vez de rirem ambos. Sentando-se, e convidando D. Fuas a sentar-se, o rei de Portugal pede a D. Fuas que lhe conte tudo quanto se passara.
Em breves e simples palavras, D. Fuas Roupinho conta essa grande aventura.
Em certo momento, talvez porque ousara infiltrar-se demais no campo inimigo, vira-se cercado por forças muito superiores às suas. Reflectira um pouco. Desafiar o inimigo à luz do dia, seria imprudência. Valia mais esperar pela noite... Assim, quando a noite chegou, arrastados por D. Fuas, os portugueses, poucos embora, num desses lances temerários em que a audácia esmaga o número, caíram de surpresa sobre os mouros, dominando-os por completo...

D. Afonso Henriques escuta-o em silêncio. Mas os olhos d’el-rei exprimem o seu contentamento.
D. Fuas Roupinho manda então que ali mesmo amontoem aos pés do rei de Portugal as armas, as bandeiras e os tesouros que a sua bravura e a dos seus homens tinham sabido conquistar.
Depois, manda que tragam também, pálido e desalentado, o próprio rei mouro Gamir, comandante do exército inimigo.
— Senhor meu rei... Aqui tendes igualmente a vossos pés, Gamir, rei infiel de Mérida, o qual ousou desafiar o vosso poder… Agora, ele é apenas vosso prisioneiro.
O rei mouro deu um passo em frente.
— Tu... Tu és esse Iben Erik de que tanto se fala?...
Faz-se mais pálido. A sua voz transforma-se num murmúrio.
— Agora compreendo!... Com um chefe como tu... com cavaleiros como os teus... nada mais poderemos fazer... Que Alá nos proteja!... Vamos perder todas as nossas terras... todos os nossos tesouros!...
E sem forças para mais, Gamir cai redondo no solo, enquanto um grito aflitivo ecoa pela sala.
— Pai!... Meu querido pai!...
Soldados adiantam-se para separar a jovem que se abraçou ao velho rei mouro, chorando convulsivamente. Mas D. Afonso Henriques suspende-os com um gesto. E logo ali ordena que sejam retiradas as correntes que manietam os dois vencidos, e que passem a ser tratados como verdadeiros cristãos, entregues à guarda de D. Fuas Roupinho.

Entretanto o tempo vai passando, e D. Fuas Roupinho recebe novos encargos do seu rei e senhor. Assim, por incumbência dele, dirige-se a Lisboa, onde apronta uma frota destinada a perseguir as galés sarracenas que infestam o mar.

Pela primeira vez na História, os Portugueses saem a lutar sobre as ondas do oceano. E embora ainda sem grande experiência, conseguem vencer declaradamente os Mouros, sem dúvida muito mais experimentados em batalhas marítimas, travadas ao longo da costa africana. Foi esta a primeira grande vitória naval dos Portugueses. Animados pelo próprio triunfo, atrevem-se a ir mais longe. Sempre sob o comando do intrépido D. Fuas Roupinho, primeiro almirante de Portugal, avançam até às águas de Ceuta, depois de terem percorrido triunfalmente toda a costa do Sul. E de Ceuta voltam, trazendo apresadas inúmeras embarcações mouras.

A corte portuguesa veste galas para acolher D. Fuas Roupinho e os seus homens.
O rei Afonso abraça o almirante vitorioso e diz-lhe:
— Ide para Porto de Mós, D. Fuas. Caçai e folgai a vosso gosto, que bem ganhastes o direito a descansar dos trabalhos da guerra.
Sem mostrar alegria nem tristeza, D. Fuas limita-se a dizer:
— Cumpro sempre as vossas ordens, sejam elas quais forem, Senhor!



1ª foto: O Sítio na Nazaré. A rocha onde as patas traseiras do cavalo de D. Fuas Roupinho se fixaram, com as da frente empinadas, salvando-o da queda.
2ª foto: Vista do Sítio da Nazaré.



Reza a tradição que, no dia seguinte, D. Fuas se encaminhou para Porto de Mós. E que ali encontrou a jovem princesa moura chorando a morte de seu pai. Mal vê o alcaide, corre para ele.
— Senhor, senhor, nem sei como agradecer-vos... Mas o senhor meu pai pediu-me que o fizesse, mal vos visse... Fostes tão bom para ele e para mim!
D. Fuas Roupinho não consegue esconder a emoção.
— Graças, princesa. E conformai-vos com paciência. Foi Deus que assim o quis!
Ela ergue para ele os olhos, vermelhos de tanto chorar.
— Deus?... Dissestes Deus?...
E logo, num desabafo íntimo, acrescenta:
— Gostaria de conhecer o vosso Deus... E muito em especial a Mãe desse Deus, que dizem ser tão bom e tão generoso...
De novo, a emoção passa pelos olhos de D. Fuas Roupinho. As suas mãos acariciam os longos e negros cabelos da jovem princesa moura. E promete:
— Amanhã mesmo te levarei a ver a Sua Imagem... uma imagem que eu venero!
Cumprindo o prometido, manhã cedo, D. Fuas Roupinho leva consigo a jovem princesa moura e vai mostrar-lhe a imagem de Nossa Senhora, entre duas rochas, na Nazaré. Pela primeira vez na sua vida, a filha do rei Gamir cai de joelhos diante de uma imagem cristã.

— É linda a Vossa Senhora... Muito linda!
E D. Fuas Roupinho conta-lhe então, docemente, a história maravilhosa daquela imagem.
Um monge grego fugira com ela para Belém de Judá, dando-a a São Jerónimo. Este, por sua vez, mandara-a a Santo Agostinho. E Santo Agostinho entregara-a ao Mosteiro de Cauliniana, a uns doze quilómetros de Mérida. Aí puseram à imagem o nome de Nossa Senhora da Nazaré, por ela ter vindo da própria terra natal da Virgem Maria.
Quando os mouros derrotaram os cristãos, obrigando o rei Rodrigo a fugir para Mérida, Rodrigo levou consigo a preciosa imagem. Mas nem mesmo assim se sentiu absolutamente seguro. E resolveu fugir de novo, agora na companhia do abade Frei Romano, possuidor duma preciosa caixa de relíquias que pertencera a Santo Agostinho.
Após uma aventura dramática, quase mortos, os dois homens chegaram ao sítio da Pederneira, na costa do Atlântico. Então, resolveram separar-se. Rodrigo ficou no monte que se chama de São Bartolomeu e Frei Romano foi viver para o monte fronteiro. Combinaram, porém, corresponder-se por meio de fogueiras, que acendiam à noite. Mas, certa noite, a fogueira de Frei Romano não se acendeu. Não mais se acenderia!
Rodrigo acudiu inquieto, e foi encontrá-lo morto. Apavorado, escondeu a imagem e a caixa de relíquias numa lapa, e abalou dali, correndo como um doido.

Segundo conta ainda a tradição, veio a morrer perto de Viseu, num sítio denominado Fetal...
Concluindo a sua história, D. Fuas Roupinho acrescenta, olhando a imagem:
— Só há bem pouco tempo alguns pastores a descobriram, e eu logo me tornei num dos seus maiores devotos. Venero-a com todas as forças da minha alma.
A jovem princesa parece alheada e distante. Olhos fitos na imagem, repete como em oração:
— É linda, a Senhora!... É linda, a Senhora!...
D. Fuas afaga-lhe a cabeça e diz-lhe meigamente:
— Olha, minha filha... Podes ficar aqui a adorá-la o tempo que quiseres. Eu vou caçar. Depois, voltarei a buscar-te.

E é então que se passa algo de extraordinário.
D. Fuas Roupinho monta e galopa pelo campo, quando vê de repente passar junto de si um vulto negro e estranho... É um veado! — pensa ele... Um veado, com certeza!
Sente-se feliz. Não poderia começar melhor a sua caçada. Para mais, um veado como nunca vira em toda a sua vida. Esporeia mais o cavalo. Não pode perder presa de tanto valor... Como num desafio, o veado torna a passar junto dele. Uma vez. Duas vezes. D. Fuas Roupinho sente irromper todo o seu brio. Pois um herói como ele, um homem habituado aos combates mais árduos, vai perder uma tão formidável peça de caça? Nunca! Há-de apanhar o veado, custe o que custar. Esporeia o cavalo até fazer sangue e aproxima-se da presa. Já falta pouco. Está quase a alcançá-lo... De lança em riste, já canta vitória...

Mas, de repente, vê a terra desaparecer sob as patas do cavalo... Está à beira dum precipício, a pique sobre o mar!... Um brado aflitivo sai-lhe da garganta, enquanto o cavalo se empina, relinchando desesperadamente, e o veado se some no espaço, desfazendo-se como fumo:
— Virgem Santíssima, valei-me! Valei-me, minha Nossa Senhora da Nazaré!
Por um instante (parece uma eternidade) cavalo e cavaleiro lutam sobre o abismo. Mas a Virgem ouvira decerto o apelo angustiado de D. Fuas Roupinho. E ele salva-se. Por milagre. Por autêntico milagre!
Nas rochas, ficam marcadas as patas traseiras do cavalo, sinais que ainda hoje ali se podem ver.
D. Fuas corre ao local onde deixara a jovem princesa junto da imagem de Nossa Senhora. Encolhida a um canto, trémula, o rosto banhado em lágrimas, ela mostra-se aliviada ao vê-lo regressar.
— Oh, senhor, tive tanto medo!... Ainda bem que voltastes!... Passou por aqui um animal medonho... Parecia o Génio do Mal!
— Bem sei... Bem o vi...

E sem mais palavras de momento, o cavaleiro desmonta e ajoelha, rezando fervorosamente, a agradecer à Virgem o auxílio que lhe prestara. De que lhe serviria, afinal, ser um herói como era, se não tivesse a seu lado a protegê-lo a presença milagrosa de Nossa Senhora da Nazaré? Esse, sim, era o maior de todos os prodígios! E enquanto se ergue, respirando fundo, como que a afastar os últimos temores, D. Fuas Roupinho confessa serenamente:
— Sim, jovem princesa… O monstro que passou por aqui, transformado em veado, era o próprio Demónio... Estive prestes a morrer, tentado por ele, mas Nossa Senhora salvou-me!
E, com súbito entusiasmo, acrescenta:
— Hei-de levar esta imagem para o local do milagre, para o sítio onde tudo aconteceu... Lá ficará, pelos séculos fora, como símbolo do misericordioso poder da Virgem!

E logo dali sai a cumprir a promessa. Às ordens de D. Fuas Roupinho — e, segundo se diz, ajudando-os por suas próprias mãos — pedreiros de Leiria e de Porto de Mós constroem a Capela da Virgem num sítio chamado da Memória, em memória de tão extraordinário milagre que salvara o almirante português de morte certa e brutal.
E a imagem da Virgem Nossa Senhora da Nazaré lá continua a invocar a lenda, atraindo todos os anos milhares e milhares de fiéis, por ocasião das afamadas e tradicionais festas da vila.

Fonte Biblio; MARQUES Gentil, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 9-1
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