Portugal não é apenas o litoral. Não vale a pena discutir sobre a evidência mais cruel que se pode fazer a um País. Dividi-lo entre Vida e Morte.

A CULPA - Francisco Moita Flores
facebook.com/moitaflores/Vivi num Monte alentejano - a Defesa de S.Brás - a poucos quilómetros de Moura, na margem do rio Ardila, até aos dezasseis anos. Nele viviam dezenas de famílias, dedicadas aos trabalhos agrícolas. Era tanta gente que havia uma escola primária com cerca de trinta crianças. Foi aí que aprendi as primeiras letras. Nas herdades vizinhas, a Rola, Eirinhas, Vale de Manantio, Ratinhos multiplicavam-se famílias e os campos habitados não permitiam que houvesse fogos com a dimensão daqueles que hoje encontramos. Todos acorriam ao sinal de rebate e quando chegavam os bombeiros já o incêndio tinha sido agarrado pelas goelas e estrebuchava. Hoje, no Monte, onde eu vivi, mora um ou dois casais de velhotes. Os restantes estão desertos. É assim em todo o interior do País. Foram-se os homens, os rebanhos e a florestas e as matas ficaram ao abandono. Aldeias semi-desertas, vilas envelhecidas, milhares de hectares sem vivalma.
Desiludam-se os 'profissionais' da culpa. Podem investir milhões e milhões em aviões, caldas, maquinaria, homens e sofrimento. Podem imputar a culpa a incendiários, a ministros, a autarcas. Não passa de um jogo de passa-culpas tão típico dos Pôncios Pilatos dos novos tempos. Os enormes incêndios são apenas um sintoma e não uma culpa imediata. Faltam homens, faltam mulheres, faltam crianças, faltam investimentos, faltam rebanhos e máquinas, falta actividade humana que vigie, que policie, que cultive e ocupe o deserto de pessoas em que se tornou mais de metade do País.
Desiludam-se! Os incêndios são apenas um dos lados por onde estão a morrer, ou a sobreviver com dificuldade, velhotes sem força para um último combate. Esqueçam as culpas pelo imediato. Olhem o interior do País como um território rico que, um dia, pode renascer sem houver condições para lá fixar pessoas. Portugal não é apenas o litoral. Não vale a pena discutir sobre a evidência mais cruel que se pode fazer a um País. Dividi-lo entre Vida e Morte.
Vale a pena terminar com esta brutal ausência de visão e de justiça económica e social. E assim continuará enquanto este problema de fundo não for resolvido. O resto é a confusão normal de quem não compreende que se gasta tanto dinheiro e os campos continuam a arder. E continuarão a arder até que, finalmente, o País seja uma distribuição democrática do investimento, da riqueza e do trabalho. Até lá, será sempre um imenso fogo e silêncio. E solidão. Um imenso velório!



