Portugal Glorioso: acordo ortográfico
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Juiz Rui Teixeira PROÍBE Acordo Ortográfico

 ● 28/07/15 coment

Rui Teixeira proíbe acordo ortográfico

Magistrado alega que as "actas não são uma foram do verbo atar" e que "os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso".

Portugal Glorioso

O juiz Rui Teixeira, colocado no Tribunal de Torres Vedras, "não quer os pareceres técnicos sociais com o novo Acordo Ortográfico", revela o Correio da Manhã.

O magistrado enviou uma nota à Direcção Geral de Reinserção Social (DGRS) em Abril onde se podia ler, que esta "fica advertida que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011 (...) a qual apenas vincula o Governo e não os tribunais".

A DGRS pediu um esclarecimento ao juiz, tendo este respondido que a "Língua Portuguesa não é resultante de um tal «acordo ortográfico» que o Governo quis impor aos seus serviços', diz o juiz, acrescentando que "nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário", escreve o Correio da Manhã.
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O Acordo Ortográfico no seu melhor

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Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas.

É um fato que não se pronunciam .
Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se?
O que estão lá a fazer?
Aliás, o qe estão lá a fazer?
Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.



Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra.
Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s” ?
Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”. Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z”. Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”.

Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nadade “k”. Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som “ch”. O som “ch” será reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa.

Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”. Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural. No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu? Para qê qomplicar ?!? Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto?
Maix uma letra mud a qe eliminamox.

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam! Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia.
É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax.

Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! qe é qe temux o “u”? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.
Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i”. I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”. Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx” . Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?

Maria Clara Assunção
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«Um dia deprimente e de traição à pátria» Sousa Tavares

 ● 22/05/15 coment
O dia em que o Acordo Ortográfico entrou em vigor em Portugal


Miguel Sousa Tavares, que sempre se opôs ao novo Acordo Ortográfico, não tem dúvidas: "Hoje é um dia deprimente e de traição à Pátria". Para o comentador, este acordo significa uma perda de identidade para Portugal.

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«Os loucos e arrogantes traidores da Pátria»

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Acreditam que estão a defender o futuro da língua portuguesa. Estarão?

Ao defender o AO, acreditam que estão a proteger o futuro do idioma português e a assegurar a sua projecção no planeta. Têm uma relação “tu cá tu lá” com o estudo da língua portuguesa: são professores universitários, ensaístas e linguistas. Apesar das controvérsias, vêem finalmente o AO em vigor, desde o passado dia 13 de Maio.



Pedro Dinis Correia

Também linguista, Pedro Dinis Correia, é mais um dos defensores do Acordo. Juntamente com o professor João Malaca Casteleiro, é autor da obra, “Actual, o Novo Acordo Ortográfico”, que resume “de forma clara e sucinta quanto possível, as modificações do Acordo Ortográfico de 1990. Este, pode ler-se na sinópse da obra, “apenas afecta a grafia da escrita e não interfere de modo nenhum nem nas diferenças orais, nem nas variações gramaticais ou lexicais”. É também autor de um dicionário prático segundo as novas regras. Pedro Correia organizou em Lisboa, conjuntamente com o professor Malaca, um curso de formação na nova ortografia.

Malaca Casteleiro

João Malaca Casteleiro, nascido em Teixoso (Covilhã), a 29 de Agosto de 1936, licenciou-se em Filologia Românica, em 1961. Doutorou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1979, com uma dissertação sobre a Sintaxe da língua portuguesa, onde é professor catedrático desde 1981. É membro da Academia das Ciências de Lisboa e foi o principal responsável na elaboração do Novo Acordo Ortográfico de 1990, aprovado em Outubro e Dezembro desse ano em reuniões em Lisboa, com a participação de representantes dos sete países lusófonos de então, acordo esse que apenas entrou em vigor este ano. É ainda Investigador do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, integrando-se no grupo “Multiculturalismo e Lusofonia de Política de Língua Portuguesa”.

O conceituado linguista vê no Acordo Ortográfico a possibilidade de projecção internacional da língua portuguesa, através da junção das duas grandes normas oficiais de ortografia que divergem entre si – o português e o brasileiro. “O problema começou em 1911, quando Portugal fez a primeira grande reforma da língua sem consultar o Brasil. A partir daí criaram-se duas ortografias que ao longo do século XX se foram distanciando, apesar das várias tentativas de unificação”, diz ao i. Tentativas de acordos que pressupunham uma unificação completa da língua, explica, algo que não é possível, como se veio a verificar. Agora, o objectivo é unificar “tanto quanto possível” a pensar no futuro da projecção da língua portuguesa no mundo. “É um acordo a pensar no futuro”, assegura.

O professor universitário, que foi redactor da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico, admite que não há nenhum acordo perfeito e reconhece que existem imperfeições neste. Em todo o caso, recorda que sempre existiram e sempre hão-de existir duplas grafias e fonéticas, mesmo em Portugal (“toiro – touro”; “oiro – ouro”, por exemplo). Como também existem divergências na língua inglesa, entre o americano e o britânico. O que está em causa é a unificação da ortografia e não da pronúncia, essa é “muito difícil de conciliar”. Sem a aprovação deste acordo, em 1990, Malaca considera que se corria o sério risco de termos hoje oito ortografias diferentes, depois do processo de descolonização e de, consequentemente, a língua portuguesa deixar de ser das mais faladas do planeta. E é com muito orgulho que diz que há “250 milhões de pessoas a falar português”, que é falada em quatro continentes e que é mesmo o idioma mais usado no hemisfério sul. Salientando que já há muitos professores universitários, centros de investigação e jornais a colocar em prática a nova ortografia, encara com optimismo a mudança e diz que os mais jovens estão a aprender “sem qualquer problema”. Para os mais velhos diz que é uma “questão de hábito” e de se repensar mentalmente a ortografia das palavras até ser algo automático. E sublinha que o Acordo - “que não é uma reforma” - não desvirtua o passado e foi feito a pensar sobretudo no futuro e na economia.

Malaca Casteleiro, que é autor de vários dicionários de língua portuguesa, comenta ainda que, no que diz respeito à supressão das consoantes mudas (“facto – fato”, “óptimo – óptimo”, “aspecto – aspeto”) – algo que tem sido muito criticado – “é mais fácil suprimir uma consoante da escrita a quem a pronuncia, do que colocá-la na escrita de quem não a articula”. O professor finaliza a conversa perguntando-nos: “E no i vão começar a usar o Acordo?”

Fernando Cristóvão

Fernando Alves Cristóvão, que usa o nome literário de Fernando Cristóvão, foi Assistente do escritor Vitorino Nemésio na Faculdade de Letras de Lisboa, tendo-lhe sucedido na Cátedra de Literatura Brasileira. Foi Presidente do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa - ICALP -, actual Instituto Camões, e é membro da Academia das Ciências de Lisboa. Pertence ainda a várias instituições científicas nacionais e internacionais e actualmente integra a Comissão de Avaliação Externa das Universidades Portuguesas. Foi professor visitante e conferencista em várias universidades estrangeiras -Rio de Janeiro, Salvador da Bahia, Brasília, Rennes, Utrech, Colónia, Pequim e Seul. Dirige uma equipa de investigadores na área de “Literatura e Cultura” do Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, privilegiando as temáticas brasileira e de literatura de viagens. É Presidente da Associação de Cultura Lusófona, sediada na Faculdade de Letras de Lisboa, onde prepara, com uma equipa, o Dicionário Temático da Lusofonia. Linguista, aceso defensor da nova ortografia, disse ao jornal “Público”, em resposta àqueles que encaram o acordo como uma cedência ao Brasil, que “as mudanças que se fizeram com este acordo já tinham sido reclamadas em 1746 pelo português Luís António Verney”(que na sua obra ‘O Verdadeiro Método de Estudar’ defendia que os portugueses deviam escrever a língua exactamente como a pronunciam). Cristóvão também é apologista da ideia de aproximar a ortografia da pronúncia, mas se mudar a primeira é possível, a segunda nem tanto, dada as complexas diferenças linguísticas dos vários países da CPLP.

Carlos Reis

Ensaísta e professor do departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra, é natural de Angra do Heroísmo, nos Açores. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade onde é hoje professor de Teoria da Literatura, Teoria da Literatura Comparada, Introdução aos Estudos Literários e Literatura Espanhola (moderna e contemporânea) nesta Universidade antes de 1975, foi também o responsável pela cadeira de Literatura Portuguesa (moderna e contemporânea) e um dos fundadores da Universidade Aberta, criada em 1988. Carlos Reis, especialista em Eça de Queirós, tem sido um dos maiores defensores do Acordo Ortográfico de 1990. Para o professor, a resistência ao acordo prende-se com uma questão passional. Em entrevista ao “Expresso”, defendeu que o Estado deve “estabelecer” as regras da língua, porque “se assim não fosse as gramáticas, dicionários ou prontuários ortográficos perderiam qualquer sentido. A sua existência, associada ao ensino regido por programas que o Estado aprova, confirma que a língua é um sistema comunicativo complexo que, sendo aberto a derrogações que vão sendo introduzidas pela prática corrente e pela criação literária, não passa sem regulação”. Na sua opinião, o Acordo Ortográfico traduz essencialmente um propósito político de conferir ao idioma a unidade possível, esbatendo as diferenças na escrita. Aliás, “não temos de falar como os brasileiros, o acordo é sobre ortografia”, ressalvou. (fonte: ionline)
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«A gente do AO: Políticos modernaços e ignorantes»

 ● 12/01/15 coment

Os apátridas da língua que nos governam

Uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.

À memória do Vasco Graça Moura

Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.

Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.



Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.

É um problema da nossa identidade como portugueses que está em causa, na forma como nos reconhecemos na nossa língua, na sua vida, na sua história e na sua proximidade das fontes vivas de onde nasceu: o latim. Não é irrelevante para o português e a sua pujança, a sua capacidade de manter laços com a sua origem no latim e assim comunicar com toda a riqueza do mundo romano e, por essa via, com o grego, ou seja, o mundo clássico onde nasceu a nossa cultura ocidental. Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.

O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável. Chegado aqui recordo-me sempre do “jovem” do Impulso Jovem aos saltos em cima do palco a dizer “ó meu isso não serve para nada”, sendo que o “isso” era a história. Esta é a gente do AO, e, como de costume, encontram sempre sábios professores ao seu lado, os mesmos que vêem as suas universidades a serem cortadas, em nome da “empregabilidade”, da investigação nas humanidades e em sectores como a física teórica e a matemática pura, teorias sem interesse para os negócios. “Ó meu, isso não interessa para nada!”.

Mas estamos em 2015 e hoje o português de Portugal está sitiado e numa situação defensiva. Não é no Brasil que o português está em risco, nem em Angola, Cabo Verde, Moçambique ou Timor. Aí os riscos do português são os riscos de sempre e vêm da extensão da colonização, da sua relação com as línguas autóctones, dos crioulos que gerou, e do modo como penetrou nas elites e no povo desses países, se é ou não a língua de cultura ou a língua da administração e do Estado. E não é certamente no Brasil que o português está na defensiva, bem pelo contrário, é no Brasil que o português está num momento particularmente criativo.

Quer se goste quer não, a locomotiva da língua portuguesa não é a academia portuguesa, mas a pujança do povo e da sociedade brasileira, a sua criatividade e dinamismo. E isso fará com que o português escrito no Brasil esteja sempre para lá de qualquer AO, como aliás aconteceu no passado e vai acontecer no futuro. É o mais fútil dos exercícios, até porque enquanto o português de Portugal for para o português do Brasil como o latim é para o português, ainda tem um papel. Se abastardamos o português de Portugal, nem esse papel teremos, a não ser escrevermos um “brasileiro” mais pobre que não serve de exemplo a ninguém.

A vitalidade do nosso português está nos seus grandes escritores, Miranda, Camões, Bernardes, Vieira, Herculano, Camilo, Eça, todos conhecedores do seu Virgílio, do seu Horácio, do seu Ovídio, mesmo do seu escolar Tácito, César ou Salústio. Todos lidos, estimados e estudados no Brasil, que por eles faz muito mais do que nós alguma vez fizemos, por exemplo, com Machado de Assis. E é também por isso, que a maioria dos escritores portugueses contemporâneos recusa o AO, como quase toda a gente que está na escrita e vive pela escrita e é independente da burocracia do estado. Todos sabem que o português permite todas as rupturas criativas, dos simbolistas ao Sena dos Sonetos a Afrodite Anadiómena – “E, quando prolifarem as sangrárias,/ lambidonai tutílicos anárias,/ tão placitantos como o pedipeste”, – ao “U Omãi Qe Dava Pulus” de Nuno Bragança. Criativamente a nossa língua vernácula suporta e bem tudo, menos que seja institucionalizada com uma ortografia pobre e alheia à sua história.

O futuro do português como língua já está há muito fora do nosso alcance, mas o português que se fala e escreve em Portugal, desse ainda podemos cuidar. É que é em Portugal que o português está em risco, está na defensiva, e o AO é mais uma machadada nessa defesa de último baluarte. É em Portugal que um Big Brother invisível, que se chama sistema educativo, retira todos os anos centenas de palavras do português falado, afastando das escolas os nossos escritores do passado e substituindo-os por textos jornalísticos. É em Portugal que uma linguagem cada vez mais estereotipada domina os media, com a substituição dos argumentos pelos soundbites, matando qualquer forma mais racional e menos sensacional de conversação. É em Portugal que formas guturais de escrita, nos SMS e nos 140 caracteres do Twitter, enviados às centenas todos os dias por tudo que é adolescente, ou seja também por muitos adultos, se associa à capacidade de escrever um texto, seja uma mera reclamação a uma descrição de viagem. É neste Portugal que, em vez de se puxar para cima, em nome da cultura e da sua complexidade, em nome da língua e da sua criatividade, em nome da conversação entre nós todos que é a democracia, se puxa para baixo não porque os povos o desejem, mas porque há umas elites que acham que a única pedagogia que existe é a facilidade.

E é neste Portugal que uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade, que vem dessa coisa fundamental que é falar e escrever com a fluidez sonora do português, mas também com a complexidade da sua construção ortográfica. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.
https://www.publico.pt/
José Pacheco Pereira
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Com gente desta no Parlamento, não vamos a lado nenhum

 ● 12/04/14 coment

Michael Seufert, as frequências e as avaliações



O deputado Michael Lothar Mendes Seufert, do CDS/PP, nascido em 83, estudante, tem como habilitações literárias uma "frequência" de Licenciatura em Engenharia Electrotécnica e de Computadores e, sem a terminar, uma frequência de Mestrado em Engenharia Electrotécnica de Computadores.

Na página da Assembleia da República consta que o ilustre integra as Comissões de Orçamento Finanças e Administração Pública [Suplente], de Educação Ciência e Cultura [Coordenador GP], o Grupo de Trabalho - Parlamento dos Jovens e Grupo de Trabalho - Regime Jurídico da Partilha de Dados Informáticos.

Não obstante a décalage entre o Curriculum académico e os cargos que ocupa no parlamento, o rapaz Michael defende, "com conhecimento de causa", que os professores contratados sejam sujeitos a provas de avaliação. Então, porque não avaliar-se também o rapaz Michael?

Por Herminius Lusitano
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