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"Aqueles loucos de Paris desenhavam os medos burgueses há 45 anos"

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Quando isto acalmar, as instalações do Charlie Hebdo (CH) fecharem e o luto estiver feito, não estaremos muito melhores sem as chatices que eles armavam?

É que bem vistas as coisas – e eu li insinuações destas – não é que eles “merecessem” morrer mas estavam a puxar “más vibrações” ao gozar com as crenças dos outros? Bom, arrisco mais: alguém vai sentir falta “daquilo”? Havia quem se lembrasse que existiam sem ser quando criavam problemas? Não estaríamos todos mais seguros sem o CH?

Não é humorista quem quer. Muito menos da escola do CH. Eu não sou humorista. Sou jornalista. Isso tem essencialmente a ver com uma estratégia mental ao nível quase instintivo. Quando se gere uma equipa de humoristas fica-se chocado com o potencial suicida do material que produzem. O humorista centra-se apenas no primado da “piada” e de ter “acertado” e há uma quase total despersonalização das consequências. Alguém disse que o diretor do CH era uma criança grande. E acredito. Mas é este tipo de “alienação” levada a um espírito de “missão” contra os poderes instituídos que fazem de alguns humoristas tipos raros. Muito raros. Não é humorista quem quer. Mesmo que saiba desenhar ou representar.

Não se é humorista de um momento para o outro. E estou a pensar no CH. Muito poucos têm a capacidade de desconstruir a realidade instituída que temos como certa e nos devolver simplificada e ridicularizada – como nunca pensámos que ela podia ser. E talvez até seja. E não será? É mesmo!

Mas voltemos à questão. Ali estávamos, em Paris, comprávamos as nossas revistas de moda, carros e política, e olhávamos de soslaio para a capa do CH, que trazia uma profanidade religiosa desenhada alarvemente e franziamo-nos e obviamente não comprávamos. Curiosamente, o seu objectivo estava de alguma forma cumprido.

O CH é, era, sempre foi um teste à tolerância pessoal e das instituições democráticas. Até que ponto aguentamos ser provocados nos nossos “proibidos”, nos nossos “sagrados”? O CH tinha uma missão que ainda não fomos capazes de lhe reconhecer: o de ir monitorizar as nossas próprias barreiras mentais.

E aqui podemos parar um pouco para ver se esta frase pomposa faz algum sentido. Por mais livres que pretendamos ser, por mais imunes às pressões, há a inevitabilidade de, dentro de nós, serem construídos muros e de começarmos a tratar por igual o que é diferente ou diferente o que é igual. Os últimos anos têm sido tremendos nesse aspecto. E por vezes não nos apercebermos. São as alterações na linguagem devido ao politicamente correto e que alteram o ângulo como olhamos a realidade (para o bem e para o mal). São as hesitações que temos quando tratamos temas referentes ao profeta e ao Islão – sim, não é o mesmo que “gozar” com Jesus.

O CH testava-nos. Ia ao núcleo íntimo dos proibidos. Dos novos e dos velhos tabus. E por isso era acusado de ser tudo e o seu oposto: racista e homofóbico, anti-religioso e anti-direita, anti-extremista e anti-anti. O prazer jocoso profano, iconoclasta e desafiador permitia que sentíssemos o pulso dos nossos novos temores. E dos mais calcados. Era natural que se detestasse o CH. Hoje não nos lembramos das vezes que nos arrepiámos ao abrir o CH e só depois assimilámos. Era “epá... ai ai ahahaha”. Saltar do choque para o riso define a nossa capacidade de não ir atrás de ninguém cortar cabeças.

Aquela gente – aqueles loucos de Paris – desenhavam os medos burgueses há 45 anos. Atacavam as regras, o poder e as opressões das instituições. Ajudavam a que nós nos percebêssemos. Essencialmente quando ficávamos chocados. Tínhamos mudado. Ao desafiar os radicais islâmicos estavam a fazer o que faziam desde sempre. A lembrar-nos que estamos com medo.

Precisamos deles? É preciso responder?
LUÍS PEDRO NUNES
Director do Inimigo Público

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4 comentários blogger

  1. Como diz o Miguel Esteves Cardoso "...Ser-se estúpido também é um direito."

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  2. Sim. Precisamos e muito....de muitos CH's.

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  3. O Nazismo foi vencido por CH homens chamados Churchill, De Gaule, Eisehower.
    O Comunismo foi derrotado por por CH homens chamados Yeltsin, Gorbachov.
    O fundamentalismo islâmico estava a ser identificado e denunciado pelo CH num vazio fé políticos com coragem. ..

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  4. As pessoas já pensaram se gostassem se desenhassem cartoons delas,ou das suas esposa(o)?ou aquelas q sejam mais ligadas a sua religião se fosse cartoons de Jesus Cristo se gostavam,se lerem a biblia para quem sabe Deus há só um,eu chamo-o Manuel,os africanos chamam António,os chineses chamam Buda os os àrabes chamam Alá.Há q respeitar as religiões e crenças de cada povo. Os Descobrimentos para quem não saiba foi o povo Português q por esse mundo fora cheio de coragem e sem medos conheceram muitos povos e muitas religiões e não fizeram pouco dessas crenças simplesmente RESPEITARAM.Pensemos melhor, se esses dois irmãos fizeram isto,respondam a esta pergunta já que o POVO anda ocupado com o q se passa no futebol e noutras coisas sem interesse o que merecia os governantes do nosso País que só sabem roubar os pequenos cêntimos dos meus colegas PORTUGUESES,mereciam que entrasse naquela assembleia da republica os irmãos Camôes ou Salazares armados com as nossas G3 que o meu pai usou no Ultramar e agora se alguém ficou chocado com algo aki escrito é só LIBERDADE DE ESPRESSÃO.

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