Portugal Glorioso

O silêncio dos inocentes

 ● 14.7.18 0  ●

arrogância da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações


São duas autênticas sentenças com pena de morte, supostamente abolida em Portugal. Decretadas por verdadeiros carrascos e com a maior das crueldades e das indiferenças perante o sofrimento alheio.



No passado dia 28 de Junho, José António Rosário Godinho, jardineiro da Câmara Municipal de Caminha, com 56 anos de idade, faleceu, ao fim de seis anos de doença, vítima de um cancro linfático.

Há cerca de 2 anos, e perante a completa comprovação da gravidade da doença que dramaticamente o afectava, a ADSE enviara para a CGA – Caixa Geral de Aposentações o processo daquele trabalhador camarário com vista à sua aposentação definitiva.

Durante todo este tempo, esse processo arrastou-se sem fim à vista. Porém, há (apenas) duas semanas atrás, veio finalmente a decisão dos burocratas da CGA, alegadamente baseada nos doutos exames e pareceres dos seus peritos médicos – o trabalhador foi considerado "apto para o serviço" e viu, por isso, ser-lhe negada a aposentação!

Menos de uma semana depois, o mesmo trabalhador, assim provocatoriamente considerado apto para trabalhar, falecia no Instituto Português de Oncologia do Porto, vítima da doença fatal que desde 2012 o atacava e consumia.

Um autêntico escândalo destes já não era suficiente para que duramente nos indignássemos e assim impuséssemos que tudo tivesse que mudar nesta matéria?

Pelos vistos, não!...

Uma semana depois, torna-se conhecida outra história igualmente arrepiante, esta da cidadã Maria Filomena, uma senhora de 55 anos, do regime da Segurança Social e também ela doente oncológica.

Conforme a própria contou, devido a um cancro agressivo, teve de, há cerca de 3 meses atrás, ser submetida a uma intervenção cirúrgica, retirar uma mama e proceder a uma raspagem do útero. Com toda esta situação de grave doença não terá actualizado a sua morada na Segurança Social, a qual lhe enviou para a residência anterior a convocatória para uma Junta Médica de Verificação de Incapacidade.

Como, pela razão já indicada, a senhora não recebeu a referida convocatória e assim não compareceu à dita Junta Médica, a Segurança Social cortou-lhe de imediato o subsídio de doença, que ela, entretanto, chegara a receber durante escassos dois meses. Nessa altura, perante a suspensão do pagamento do subsídio, a trabalhadora dirigiu-se à Segurança Social de Portimão e aí, tendo sido informada do que se passara, actualizou a morada e logo apresentou não só os justificativos médicos (as "baixas médicas" ou certificados de incapacidade temporária, 5 no total), como também todo o historial e toda a documentação clínica comprovativa da real situação de doença, pedindo que, uma vez assim perfeitamente demonstrada tal situação, lhe fosse marcada uma nova Junta Médica.

Mas, implacável e do alto da sua indiferença e arrogância, a Segurança Social rejeitou liminarmente essa possibilidade e exigiu que a senhora trabalhasse durante 6 meses para poder voltar a ter direito ao subsídio de doença, aliás, no valor “astronómico” de 320€ mensais.

Sucede que a trabalhadora – que, além de cancro, padece igualmente de diversas outras doenças, designadamente da tiroide, e ainda de uma hérnia no estômago a que terá também de ser operada – não está minimamente em condições de regressar ao trabalho, como, aliás, a própria médica de família já a advertiu.

Mas a Segurança Social – a mesma Segurança Social que, ao longo dos últimos anos, deixou acumular 12.579 milhões de euros de dívidas patronais, 7.515 milhões de euros dos quais já desistiu de receber por os considerar “incobráveis” – encarniça-se na sua posição contra esta mulher do Povo, não cede, recusa-lhe a marcação de uma segunda Junta Médica e agora, e ainda por cima, vem exigir-lhe, sob a ameaça de execução e penhora, 180,69€ de subsídio de doença que considera ter sido indevidamente pago entre 21 de Março e 4 de Abril (mês em que, aliás, ela já nada recebeu).

Deste modo, um serviço do Estado dito de segurança social e de solidariedade (como refere o artº 63º da Constituição) considera apto para o serviço e manda trabalhar um funcionário canceroso e moribundo, que falece escassos dias depois. Um outro serviço, igualmente dito de segurança e solidariedade social, aproveita-se de um pretexto meramente burocrático para negar o apoio na doença a quem já fez descontos durante mais de 3 décadas e, tão maldosa quanto hipocritamente, manda trabalhar alguém que esse mesmo serviço sabe perfeitamente que, devido a doença oncológica, está impossibilitado de o fazer, condenando-o assim à miséria ainda maior e à fome.

E o que diz a tutela governamental destes autênticos monstros odiosos em que estão transformadas a Caixa Geral de Aposentações e a Segurança Social, ou seja, o que dizem os incontornáveis ministros Centeno e Vieira da Silva e os seus Ministério? Dizem esta autêntica e provocatória preciosidade, que seria absolutamente risível se, face às circunstâncias, não fosse de uma gravidade extrema, para não dizer repugnante: a análise, feita pelas Juntas Médicas de Verificação das incapacidades para o trabalho, baseia-se na informação dos relatórios médicos que acompanham o requerente de pensão de invalidez (ou do subsídio de doença)!?

Lastimavelmente, e como se vai sabendo cada vez mais, este acinte e esta arrogância dos serviços da CGA e da Segurança Social, e em particular das respectivas Juntas Médicas, estão muito longe de serem meramente pontuais.

A própria Provedora de Justiça, a Professora Maria Lúcia Amaral, já teve oportunidade, em entrevista recente, de reconhecer publicamente que aquelas entidades são mesmo dos serviços públicos que pior funcionam e mais reclamações dos cidadãos suscitam.

Mas a verdade é que elas, mais do que isso, constituem hoje um dos piores e mais paradigmáticos exemplos do que verdadeiramente são os tão proclamados "Estados de direito" e "Estado social" em que nos pretendem convencer que vivemos.

De tão injustas e ilegais decisões como as acima referidas cabe, teoricamente, recurso para os Tribunais Administrativos, mas, por exemplo, o de Lisboa está a levar 10 anos, e até mais, para, só ao nível da primeira instância, proferir uma sentença de anulação de uma barbaridade destas. O mesmo é dizer que estas ficam impunes e podem ser indefinidamente repetidas como, de facto, o têm sido. Até porque, quem está velho, ou doente ou ambas as coisas, não tem nem disponibilidade de espírito, nem capacidade financeira, nem tempo para exercer esse outro direito, tão importante, mas tão fora do seu alcance, como é o do acesso aos Tribunais para defesa dos seus direitos e dos seus legítimos interesses.

Praticamente ninguém fala da Justiça Administrativa porque nela não há, normalmente, casos ditos "mediáticos" nem sangue a escorrer pelas calçadas que permitam ganhar audiências e encher telejornais. Mas são precisamente os Tribunais Administrativos os responsáveis – desde logo, pela sua inacção – pela inutilização de muitos dos direitos mais básicos dos cidadãos. A começar pelo direito à protecção na doença, na velhice ou na invalidez e pelo direito à pensão de aposentação ou reforma quando a idade, a doença ou o acidente já não permitem trabalhar mais. Passando, muitas vezes, pelo mero direito à informação de como se encontra o respectivo processo de atribuição de subsídio ou de pensão ou de quais as decisões que nele já foram proferidas.

E o Ministério Público – o tal sempre tão rápido e tão solícito a proclamar o seu alegado empenho no combate à criminalidade mais poderosa... – pura e simplesmente não mexe uma palha perante situações de tão patente quanto inaceitável abuso de poder, o qual é um crime público punido com pena de prisão até 3 anos nos termos do artº 382º do Código Penal, não havendo assim notícia de um único processo criminal instaurado com tal fundamento.

Casos como os acima descritos são conhecidos desde há largos anos e sucederam-se nos tempos da Tróica e do Governo Coelho/Portas, sob o pano ideológico de que os trabalhadores portugueses eram piegas e mandriões, não queriam trabalho e de que as baixas fraudulentas eram muitas pelo que havia que as combater, nem que fosse pela negação administrativa das baixas e das reformas e por o Estado mandar trabalhar os moribundos.

Mas como, mesmo com um outro governo, a natureza de classe desse Estado se manteve a mesma, o resultado é o que está à vista, ou seja, a manutenção do mesmo tipo de tratamento arrogante, vexatório e degradante contra quem é fraco e quem é pobre.

O jardineiro de Caminha sofreu e morreu, sendo considerado apto para o serviço. E a senhora de Portimão é agora condenada à fome por não poder trabalhar e por não lhe pagarem o subsídio de doença precisamente porque não trabalha.

São duas autênticas sentenças com pena de morte, supostamente abolida em Portugal há mais de 150 anos. Decretadas por verdadeiros carrascos e com a maior das crueldades e das indiferenças perante o sofrimento alheio. E pretensamente justificadas com os mais absurdos subterfúgios legais, desde a base até ao topo destas máquinas trituradoras que são os serviços públicos ditos de solidariedade, protecção e apoio aos cidadãos.

Mesmo que uns se calem e outros nos queiram distrair, perante esta barbárie é nosso direito e, mais do que isso, é nosso dever dizer: Não!

E essa postura de exigência e de responsabilidade deve começar pelo mais rigoroso inquérito – conduzido e levado a cabo por uma Comissão de cidadãos, e não obviamente pelos próprios – acerca desta forma de funcionamento dos serviços da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações com o consequente apuramento de responsabilidades, civis, disciplinares e criminais e a adequada reparação ou compensação dos danos causados às vítimas.

O jardineiro morreu! E agora, perante tudo quanto se passou, ressoa mais forte ainda a frase de Martin Luther King: "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons!"

António Garcia Pereira
http://www.noticiasonline.eu/o-silencio-dos-inocentes/
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«Qual democracia, qual quê. Para meia dúzia é o festim. Para os outros todos, o calvário»

 ● 12.7.18 0  ●
Estado dá bónus de meio milhão a antiga equipa de Oliveira Costa no BPN

Apesar de "premiar" em 2017 metade do quadro de pessoal, a sociedade pública Parvalorem não repôs, nesse ano, a progressão de carreira por mérito a 68 trabalhadores do antigo BPN com os níveis salariais mais baixos.



O Estado atribuiu bónus de meio milhão a antigos dirigentes do BPN, alvo de processos judiciais por crimes relacionados com a gestão de Oliveira e Costa. É o caso de Armando Pinto, que continua a chefiar o departamento jurídico, ou António José Duarte, o antigo assessor do banqueiro responsável por uma factura de cerca de cinco mil milhões de euros paga pelos contribuintes.

Ah, pois é. O BPN foi um titanic da vida financeira portuguesa, teve que ser salvo com a massa de todos nós, ninguém está preso e ainda levam prémios gordões para casa. Uns assaltaram o cofre, outros cobriram-lhes as costas.

É a rambóia, meninos e meninas, senhoras e senhores. O regabofe, o regalório, a vida airada. Qual democracia, qual quê, pessoal. Para meia dúzia isto é o festim. Para os outros todos, o calvário.

Joana Amaral Dias
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Seixas da Costa representa a RTP e o maior cliente da RTP

 ● 4.7.18 0  ●
O mesmo senhor é administrador da Jerónimo Martins, detentor do Pingo Doce e da Unilever (Cif, Skip, Dove, Vasenol e mais umas dezenas de marcas), o maior investidor em anúncios na RTP.




Seixas da Costa é o Presidente do órgão máximo da RTP (Conselho Geral Independente).

O mesmo senhor é administrador da Jerónimo Martins, detentor do Pingo Doce e da Unilever (Cif, Skip, Dove, Vasenol e mais umas dezenas de marcas), o maior investidor em anúncios na RTP.

A mesma pessoa representa a RTP e o maior cliente da RTP.

Conflito de interesses? Seixas da Costa não sabe o que isso é. Por isso mesmo, foi nomeado o maior responsável da RTP. Assim, todos poderão assumir relações promíscuas, da Administração à Direcção, dos jornalistas aos apresentadores.

Na RTP, a exemplo do seu Presidente do Conselho Geral, vale tudo,

O novo lema da RTP é "Ou há moralidade, ou COMEM TODOS!".

Paulo de Morais
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Como gelar bebidas em 4 minutos

 ● 22.6.18 0  ●


Quando necessitar de gelar latas ou garrafas de bebidas, pode fazer isso em apenas 4 minutos. É muito fácil. Tudo o que vai precisar são guardanapos de papel e um congelador. Esta técnica serve para latas ou garrafas de quaisquer tamanhos.

1. Enrole um guardanapo na garrafa ou lata. (veja a foto)

2. Leve à torneira, abra a água ensopando o guardanapo.

3. Com tudo molhado leve ao congelador, durante exactamente 4 minutos.

Explicação: Como o guardanapo é muito fino, quando molhado e no congelador, congela rapidamente. A garrafa, em contacto directo com uma substância congelada, fica cada vez mais gelada também.

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O esplendor do politicamente idiota - Miguel Sousa Tavares

 ● 20.6.18 1  ●
Que haja portugueses que tenham vergonha desta história e queiram reescrevê-la numa espécie de museu de autoflagelação é problema deles. Mas não pode ser problema dos outros. O dinheiro dos nossos impostos não pode servir para fazer um museu contra a nossa História, contra uma História que foi tão grandiosa que, se calhar por isso mesmo, nem a conseguimos entender, na nossa pequenez actual.


O esplendor do politicamente idiota
(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/04/2018)


Pobre Fernando Medina, do que ele se foi lembrar: fazer um Museu das Descobertas, ou dos Descobrimentos, em Lisboa! Uma ideia que pareceria absolutamente consensual e necessária e que só pecava por tardia, parece que se transformou numa polémica que já suscitou a indignação de mais de uma centena de historiadores e “cientistas sociais”, trazida a público num abaixo-assinado de professores de diversas Universidades, portuguesas e estrangeiras — se bem que, para dizer a verdade, quase todas de segundo plano, as Universidades, e quase todos, portugueses, os professores, com excepção de alguns, que presumo brasileiros, em decorrência dos nomes que ostentam e que só podem ter origem em antepassados portugueses e não em avós balantas ou mesmo tupi-guaranis.

Antes de, com a devida vénia e indisfarçável terror, entrar na polémica, deixem-me confessar a minha ignorância preliminar relativamente a duas questões, seguramente menores: desconheço quase por completo, não só os nomes, mas, sobretudo, a importância dos ditos historiadores para o que, num português em voga mas não recomendável, chamam “a riqueza problematizante” do que ora os ocupa; e desconheço ainda mais o que faça ao certo um cientista social que o torne uma autoridade na matéria.

Isto posto, e indo ao fundo da controvérsia, estas cem excelentíssimas autoridades indignam-se, em suma, contra o maldito nome do nascituro museu. Porque a questão, dizem eles, é que chamar-lhe Museu das Descobertas ou dos Descobrimentos, “não é apenas um nome, é o que representa enquanto projecto ideológico”. Este, esclarecem, é o projecto ideológico do Estado Novo, “incompatível com o Portugal democrático”. Bravo, António Ferro, o SNI continua vivo, os Descobrimentos portugueses mais não foram do que a antecâmara do colonialismo e o Estado Novo o seu apogeu e desfecho natural! O “mar sem fim português”, de que falava Pessoa, outra coisa não era, afinal, do que o Portugal do Minho a Timor, de que falava Salazar.

Pois, bem, se a palavra “descobertas” envolve um “projecto ideológico” de conotações maléficas, isso significa que as excelentíssimas autoridades têm outro projecto ideológico que se opõe e resgata este. Qual seja, e abreviando, chamar a atenção, por exemplo, para que os povos alegadamente descobertos pelos portugueses não se terão sentido descobertos, porque, de facto, já lá estavam. É um argumento tão fantástico, que, de facto, é irrebatível. Mas, salvo desconhecida opinião, ninguém sustenta que Vasco da Gama criou do nada o samorim de Calicut, que os Jesuítas encontraram o Tibete despovoado ou que Pedro Álvares Cabral celebrou a primeira missa em Terras de Santa Cruz para uns fantasmas vestidos de índios. Não, o que eles fizeram foi encontrar as rotas, marítimas ou terrestres, que ligaram o Ocidente e a Europa ao Oriente e às Américas, pondo em contacto dois mundos até aí sem contacto algum (com a excepção parcial das viagens de Marco Polo, por via terrestre, e as viagens marítimas, sem sequência científica ou outra, dos vikings). O que se sustenta é que não foi o samorim que se deu ao trabalho de largar o seu luxuoso trono e apanhar uma low-cost para a Europa, mas o Gama que se arriscou a ir mar fora naquelas cascas de noz ao seu encontro. Na época, isso significou — em termos de navegação, de cartografia, de indústria naval, de rotas comerciais e de avanços científicos em todas as áreas — um pulo de uma dimensão nunca antes e raras vezes igualado depois, na história da Humanidade. Sem falar das terras virgens que descobrimos e dos que não descobriram povos, dos que navegaram em pleno desconhecido, movidos por um verdadeiro sentido de descoberta tão extremo e destemido que só poderemos classificar como quase demência: Bartolomeu Dias dobrando o Cabo da Boa Esperança sem saber o que iria encontrar do outro lado; Fernão de Magalhães procurando insanamente o Estreito que ainda hoje tem o seu nome, ligando o Atlântico ao Pacífico e provando que a terra era redonda e circum-navegável em toda a sua extensão; os irmãos Corte-Real desbravando o limite extremo do norte navegável. Todos eles em mar aberto e em terra de ninguém, onde seria impossível às excelentíssimas autoridades encontrarem forma práctica de dar execução a outro dos argumentos arrolados para o conceito ideológico do seu museu: “Valorizar as experiências de todos os povos que estiveram envolvidos neste processo”.

Enfim, e sempre resumindo, vem depois o argumento da escravatura. É incontornável e eu subscrevo-o: deve estar referenciado num museu sobre as Descobertas, e subsequente colonização portuguesa. Sem esquecer, porém, que não foram os portugueses que inventaram a escravatura, mas apenas aproveitaram o comércio de escravos que encontraram florescente nas costas oriental e ocidental de África. E sem esquecer também que, sem desculpar o que foi a tragédia da escravatura, não há erro mais simplista de cometer do que julgar a História pelos padrões éticos contemporâneos. E estou à vontade no assunto, pois escrevi um romance histórico cujo tema central era a escravatura em São Tomé e Príncipe e em que, apesar de ela ter durado até à primeira metade do século XX (!), não encontrei, curiosamente, entre tanta fonte pesquisada e tanto historiador preocupado, nenhum trabalho histórico de referência que a contemplasse.

Não resisto a uma palavra aos invocados historiadores brasileiros que assinam esta petição. Conheço muito, de ver e de ler, da herança história de Portugal no Brasil — e tenho um profundo orgulho nela. Todos os ciclos de prosperidade histórica do Brasil, ligados às riquezas naturais, tirando o primeiro — o do pau-brasil, irrelevante, em termos económicos — foram feitos graças a árvores levadas para lá pelos portugueses: a cana de açúcar, a borracha, o cafeeiro, até os coqueiros, que levámos da Índia. E o ouro, o célebre ouro, roubado pelo D. João V? Ah, o ouro do Brasil! Do célebre “quinto real” (tudo o que cabia à Coroa), nem um quinto cá chegou. O resto? Perguntem a todas as ‘Lava-Jato’ que saltearam o Brasil, desde 1822. Pedras, monumentos? Tudo o que ficou de pé é português: no Pará, em Pernambuco, em Salvador, em Minas, no Rio, em Paraty, onde quiserem. E o Amazonas, cujo desbravamento por Pedro Teixeira é uma aventura assombrosa de coragem e persistência e cuja colonização, que incluiu a construção dos sete fortes de fronteira, erguidos com pedras de granito levadas de Portugal a mando do marquês de Pombal, e a que o Brasil ficou a dever milhões de quilómetros quadrados de floresta virgem preciosa, e que foi, no dizer do grande historiador brasileiro Joaquim Nabuco, “talvez a maior extraordinária epopeia de todos os Descobrimentos portugueses”? É bem provável que os brasileiros não saibam nem queiram saber dessa história. Os portugueses não sabem com certeza. Mas deviam saber.

Que haja portugueses que tenham vergonha desta história e queiram reescrevê-la numa espécie de museu de autoflagelação é problema deles. Mas não pode ser problema dos outros. O dinheiro dos nossos impostos não pode servir para fazer um museu contra a nossa História, contra uma História que foi tão grandiosa que, se calhar por isso mesmo, nem a conseguimos entender, na nossa pequenez actual. Tudo isto me faz lembrar o que escreveu no início de um poema uma senhora que, por acaso, era minha mãe: "Navegavam sem o mapa que faziam/ Atrás deixando conluios e conversas/ Intrigas surdas de bordéis e paços...".

Para terminar: já me tinha pronunciado sobre isto antes. Antes de esta irrepetível oportunidade para fazer uma coisa bem feita ter sido capturada pela intelligentsia ociosa dos abaixo-assinados. Mas volto ao que então escrevi: eu não queria apenas um Museu das Descobertas em Lisboa. Queria um Museu de Portugal e do Mar ou dos Portugueses e o Mar. Onde coubesse também a história de duas outras extraordinárias epopeias que o comum dos portugueses e dos estrangeiros que nos visitam desconhece: a nossa contribuição única e indispensável na história da pesca à baleia (juntamente com os cabo-verdianos), no Atlântico e Pacífico, e na história da pesca ao bacalhau à vela, na Gronelândia e norte do Canadá. Desse modo se tornaria patente que não foi por um simples acaso, nem para espalhar a fé e o império, ou apenas para trazer a pimenta e a canela da Índia, que este pequeníssimo povo, entalado entre o fim da Europa e o mar, escolheu o mar como destino. E, porque o espaço tem relação directa com isso, porque está miseravelmente desaproveitado, porque é lindo e porque sai mais barato aos contribuintes, queria vê-lo na Cordoaria Nacional.
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«Os primeiros a desembarcar fomos nós, é verdade. Houve descobertas»

 ● 19.6.18 0  ●

"A história da expansão portuguesa é notável. É extraordinário que não tenha um Museu", diz Clara Ferreira Alves.



Polémica Museu das Descobertas - intervenção de Clara Ferreira Alves no O Eixo Do Mal: "Os primeiros a desembarcar fomos nós, é verdade. Houve descobertas, estão lá, nos sítios. Portugal tem uma história da expansão notável... e é extraordinário que não tenha um Museu".
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ENTREVISTA:
Eduardo Lourenço não vê necessidade de "crucificar" passado português

Eduardo Lourenço comentava, em entrevista à agência Lusa, a polémica relacionada com um possível "Museu das Descobertas", em Lisboa, que motivou uma carta aberta, publicada em abril no jornal Expresso, de dezenas de historiadores que se opõem ao conceito por trás da designação, e teve já várias outras -- a favor e contra -- desde então.

"Não sei por que é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objecto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época", afirmou.

O filósofo confessou ainda não entender este movimento, quando, independentemente das consequências negativas, como a escravidão, as descobertas tiveram na génese uma motivação "louvável" e quando tantos outros países da Europa cometeram "crueldades" muito maiores.

"Já não podemos reparar nada, que essas coisas não têm reparação, mas podia ser [este movimento] um gesto que se justificasse por uma espécie de maldade particular e única que nos afastasse da consideração de país civilizado, de um continente civilizado chamado Europa, mas não", afirmou.

Na opinião de Eduardo Lourenço, as "crueldades" de Portugal não podem ser queimadas "na mesma fogueira" de outros, para salvar o país 'a posteriori' daquilo que já não se pode emendar.

"Uma parte desses senhores que subscrevem esse documento têm as suas razões, são historiadores, conhecem, mas houve tragédias na Europa que não são da nossa alçada, que fomos os mais pacíficos, dos povos do sul da Europa", disse, lembrando "outras nações, outras culturas, que fizeram passar a Europa por períodos de facto muito difíceis de aprovar nas suas intenções, caso da Alemanha, da França e de outros países".

O ensaísta, que hoje comemora 95 anos, no mesmo dia em que se dá a antestreia de um documentário inspirado na obra "O Labirinto da Saudade", acrescentou ainda nunca ter visto "um grande discurso a autojustificar aquilo que se passou no Leste durante mais de 100 anos e que também não foi nada de que [se possam gloriar] enquanto europeus, ou simplesmente enquanto seres humanos".

"Mas enfim, cada um faz a penitência que julga mais adequada à visão que tem da História. Eles são historiadores, terão as suas razões, eu tenho a minha: acho extraordinário, num momento em que a Europa é quase toda ela democrática, que, de facto, um país com menos problemas graves e de difícil resolução no mundo seja objeto desta espécie de penitência pública", afirmou.

Evocando ainda colonizações mais violentas, como a dos espanhóis no México ou no Peru, disse: "nunca vi este acto quase de tribunal de inquisição ser convocado metaforicamente para pôr na pira a história do nosso pequeno país, que não o merece". (fonte DN)
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