Miguel Szymanski: O 'caso' Miguel Sousa Tavares

Miguel Szymanski: "Uma coisa é certa: não deixarei de fazer jornalismo. Não deixarei de mandar o poder à merda (...) Aprendi com o MST algumas lições"


Miguel Szymanski: O 'caso' Miguel Sousa Tavares

O 'caso' MST 

Epicédio a um ou dois jornalistas

 
Olhar para os assuntos tem uma perspectiva natural, a nossa. Se conhecer o artista ou o autor tenho dificuldades em ver um quadro ou ler um livro de forma isenta. 

Não posso olhar para a saída do jornalismo de Miguel Sousa Tavares (MST) sem pensar nas - poucas - vezes que estive e falei com ele e nas - muitas - que o li. A seguir, há todo um trabalho de abstração a fazer. 

As memórias podem ser um entrave que tem de ser ultrapassado. Noutras ocasiões completam a análise. Uma coisa é certa: a reflexão sobre as experiências que fazemos, quando estamos no terreno com a história e os seus protagonistas, são o contributo mais genuíno. 
 
No tempo em que MST era o director da revista, publiquei trabalhos na Grande Reportagem, sobre o Peru e a Bolívia, Marrocos e a Turquia, até sobre a Alemanha. Na altura, últimos anos da década de 90, o MST, parecia-me um exemplo a seguir no jornalismo. Não era muito simpático, mas, nas poucas conversas entre nós, tentou, acho que com algum esforço, não ser excessivamente arrogante. 
 
Para mim aquelas reportagens foram sempre uma actividade deficitária; os honorários não cobriam, nem de perto nem de longe, os custos das viagens de quatro a seis semanas à América do Sul ou a África. Mas eu tinha decidido ser colaborador da Grande Reportagem, as ideias fixas têm um custo. 

Por essa altura ouvi-o queixar-se que, para ganhar mil contos por mês, tinha de ter dois empregos. Senti-me indignado com a petulância. O ordenado médio dos meu colegas jornalistas era, à época, de 150 a 180 contos. 
 
Alguns anos depois li um prefácio dele a um livro ("Sul"?) em que escrevia, que fizera a sua primeira viagem aos 18 anos, a Badajoz. Badajoz. Percebi o atraso que Portugal tinha sido antes do 25 de Abril, mesmo para um filho da elite cultural de Lisboa como ele o é (aos 16 anos já eu tinha atravessado metade da Europa continental à boleia e viajado pela Inglaterra e a Escócia). 

Também não partilhava o seu entusiasmo por levantar pó fora da estrada, de jipe aos fins-de-semana, e por caçadas. 
 
Um dia o MST, julgo que por simpatia, ou algo próximo, sugeriu-me uma reportagem sobre espiões russos e emprestou-me meia dúzia de livros da sua biblioteca para eu ler. Explicou-me que, em Portugal, para ganhar dinheiro no jornalismo, tinha de se trabalhar sem se levantar da secretária. 

Fiz o trabalho sobre a era Khrushchev, devolvi-lhe os livros, quando entreguei o artigo - preocupado, pedira-me uma ou duas vezes para não me esquecer de o fazer. A ligação afectiva aos livros pareceu-me o traço mais simpático da personagem. Pouco depois, saiu da revista e não nos voltámos a cruzar. 
 
Não voltei a escrever para a Grande Reportagem; não gostei da única conversa com o seu incrivelmente, no sentido literal, simpático sucessor que me pediu para fazer propostas para artigos. Sem o MST a revista perdera interesse. 

A vantagem de alguém arrogante com traços narcisísticos sobre os lambe-botas e graxistas é essa: não serem lambe-botas nem graxistas. E, não o ser, é indispensável para se fazer jornalismo. MST tinha a atitude certa, mesmo que não pelas melhores razões. Que atire a primeira pedra quem quiser. 
 
À distância de 20 e tal anos, MST rir-se-á dos mil contos por mês que ganharia, ou não, nos anos 90. Com ascendedência privilegiada e apoios de peso continuou a sua carreira, com grande sucesso. Também com o mérito de defender com garra a sua posição no poleiro desta grande capoeira. 

Eu, nem por isso. Caíra, vindo de lado nenhum, em Lisboa. Não conhecia ninguém, ninguém me conhecia. Mas uma coisa é certa: não deixarei de fazer jornalismo. Não deixarei de mandar o poder à merda. Nem que para isso tenha de conduzir um táxi à noite ou de escrever romances históricos. Aprendi com o MST, à minha escala, algumas lições. 

Boa sorte e boa escrita, MST.

Miguel Szymanski (mais aqui)
https://www.facebook.com/miguelszymanski/posts/10227164028155387

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