Tudo isto é cultura, ou falta dela - Miguel Szymanski

Em Portugal os governantes estão-se, no seu íntimo, nas tintas para a cultura.

Tudo isto é cultura, ou falta dela

Hoje vou a uma escola falar para um auditório de alunos do secundário (sobre 'fake news'). Por coincidência, acabei de receber, agora mesmo, mais um pedido/convite para fazer outra palestra.

Em Portugal já fui falar a universidades e moderei debates, participei em festivais, dei entrevistas a rádios. Este mês, o canil de Lisboa pediu-me um texto para motivar as pessoas a adoptar cães.

O que é que todas estas actividades têm em comum? Exacto, não são remuneradas. Os convites referem a participação 'graciosa' ou 'pro bono'. Ou nem sequer falam no assunto, porque quem convida presume que um jornalista ou escritor não precisa de ser pago pelo seu tempo e trabalho. 

Trabalho em regime 'free lance', por conta própria. Não recebo um salário, sou pago à peça ou recebo por avença (neste aspecto ainda tenho sorte comparado com muitas/os colegas).

Para as escolas, universidades, canis etc. trabalham pessoas que, todas elas, do contínuo ao ministro, recebem salários ao fim do mês. O que é que tudo isto tem a ver com cultura?

Na Alemanha publiquei um livro em 2014. Desde então, ainda hoje, sou regularmente convidado a ir a eventos, festivais de cultura e literários, a participar em debates, a ler do meu livro, a falar em associações, mesas redondas etc. 

Todas essas actividades, na Alemanha, sem eu alguma vez mencionar o assunto, todas elas são remuneradas, além de pagarem as despesas (até uma associação de voluntários, como a Attac, no final de uma palestra, entregou um recibo para eu assinar e um envelope com 200 euros). 

Mesmo em entrevistas, em que vou falar ou ler do meu livro ('promovê-lo'), fui sempre pago, por iniciativa de quem me convidou. Por cada texto, cada crónica, cada artigo de opinião que me convidam a escrever pagam um honorário.

Dizia-me um director de uma escola, de Lisboa, há dois anos, quando lhe perguntei se não havia uma verba para os palestrantes: "Vêm cá professores universitários e deputados que também não recebem nada". 

Tentei explicar-lhe que professores e deputados são pagos pelo Estado, mas que muitos jornalistas e escritores, muitos músicos e artistas, não recebem salários, têm de viver do que fazem e que, quando não trabalham, não recebem.

Empenharmo-nos, contribuirmos para o bem comum é muito importante. Eu, a cada passeio que dou, apanho plásticos caídos no chão (vou hoje a um escola e escrevi o dito texto para o canil). 

Não imagino viver noutro país que não em Portugal. Em lado nenhum do mundo, onde já trabalhei, da Alemanha ao Zimbabwe, me sinto tão bem. Sou português de vários costados. Mas, assim, a cultura não vai a lado nenhum.

Quem dedica o seu tempo a escrever e criar, a pensar e a compor, a contribuir para a cultura da sociedade em que vive, onde os mercados, por regra, não pagam o suficiente aos criadores e artistas para viver, pelo menos quando é requisitado e convidado tem de ser apoiado pelo sociedade, num todo, em última análise pelo Estado.

Infelizmente em Portugal a verba pública e privada dedicada à cultura é irrisória e os governantes, até aqueles que gostam dos concertos para violino e oboé de Chopin, que já leram o 'Crime e Castigo' de Tolstoi, que apreciam Polack e outros impressionistas, estão-se, no seu íntimo, nas tintas para a cultura.

Miguel Szymanski
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